Por que o cinema nunca conseguiu repetir a perfeição de O Predador?
Se você viveu os anos 80, certamente guarda na memória a experiência de assistir a "O Predador" (1987), mesmo sendo criança na época.
Era comum consumir filmes repletos de violência como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O que poderia parecer na ocasião apenas mais um filme de "brucutus" na selva revelou-se depois, para quem o revisitou dezenas de vezes, um clássico absoluto.
A obra equilibra com precisão cirúrgica o cinema de guerra, a ficção científica e o horror.
Revendo o longa, fica claro por que, quase 40 anos depois, nenhuma sequência ou reboot conseguiu chegar aos pés do original de John McTiernan.
O filme é um produto típico de seu tempo, mas que em momento algum soa datado.
O cenário da selva centro-americana não era aleatório; era o microcosmo perfeito da Guerra do Vietnã, um trauma ainda latente na cultura americana, inserindo o espectador em um ambiente de paranoia militar e sobrevivência extrema.
A missão de Dutch, interpretado por um Arnold Schwarzenegger em seu auge físico e interpretativo, começa sob o pretexto da Guerra Fria: um resgate em território hostil na América Latina com guerrilheiros influenciados por agentes soviéticos.
O roteiro é astuto ao utilizar esse pano de fundo como "isca". Quando a trama transita da guerra para a ficção científica de horror, a tensão escala.
A selva deixa de ser apenas cenário para se tornar um personagem hostil, remetendo diretamente às experiências de combate que marcaram a memória militar daquela década.
Diferente de "Alien, o Oitavo Passageiro" (1979), que gerou sequências dignas (como o "Aliens" de James Cameron ou produções mais recentes, como "Prometheus"), "O Predador" parece ter esgotado sua fórmula no primeiro encontro.
Talvez porque o segredo não estivesse apenas na criatura, mas no equilíbrio do grupo.
Nenhuma das sequências ou derivados alcançou o equilíbrio perfeito entre a tensão técnica e o carisma do elenco original, tornando o primeiro filme uma obra singular e insuperável dentro do gênero.
Dutch x Rambo
O elenco funcionou como um precursor de "Os Mercenários": tínhamos ali Carl Weathers, Jesse Ventura, Bill Duke e Sonny Landham, astros que exalavam a testosterona dos filmes de ação da época.
A química entre eles estabeleceu um padrão para grupos militares no cinema: homens extremamente capazes que se veem vulneráveis diante de uma ameaça incompreensível.
Outro ponto que torna o filme memorável é a construção do Major Dutch. Ele surge como um contraponto necessário ao John Rambo, de Sylvester Stallone.
Enquanto Rambo era o exército de um homem só, movido pelo trauma e pelo isolamento, Dutch é o líder técnico e estrategista que, ao final, precisa retornar ao estado mais primitivo para enfrentar uma criatura tecnologicamente superior.
Tudo isso ganha vida com efeitos especiais que resistem ao tempo. O design e a camuflagem da criatura ainda impressionam pela crueza, longe da artificialidade de muitos CGIs modernos.
Pode-se dizer que "Predador" foi um relâmpago em uma garrafa: uma mistura de geopolítica, medo do desconhecido e o ápice do cinema de entretenimento que, infelizmente, o cinema atual parece ter esquecido como replicar.
"O Predador" está disponível no catálogo do Disney+.
* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade. E-mail: joaogabrielpcf@gmal.com
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