A maquiagem administrativa e o futuro de Poços de Caldas
Até quando a sociedade brasileira, e em particular os cidadãos de Poços de Caldas, conviverão com as falácias administrativas que permeiam a gestão pública?
Recentemente, em uma entrevista a uma rádio local, o atual prefeito de Poços de Caldas referiu-se ao seu antecessor como "um dos maiores Prefeitos da história da cidade".
Compreende-se a gratidão e a lealdade política, especialmente considerando a campanha eleitoral baseada nas benfeitorias de quase uma década de gestão.
Contudo, a realidade dos fatos parece divergir significativamente dessa narrativa.
Os números falam por si e revelam uma preocupante falta de planejamento que hoje se reflete na atual administração.
Em 2023, a Prefeitura cometeu um "erro" orçamentário de R$ 350 milhões, valores que deveriam ter sido arrecadados, mas não o foram.
Em 2024, essa margem de erro se ampliou para quase R$ 400 milhões. Para 2025, já sob a nova gestão, a projeção de "erro" atingiu a impressionante cifra de meio bilhão de reais.
Tais desvios, que são minimizados como "ajustes fiscais" ou "errinhos bobos", têm um impacto direto e devastador nos serviços públicos essenciais.
A Lei de Responsabilidade Fiscal é clara: a folha de pagamento não pode ultrapassar 51% da arrecadação.
A herança deixada por gestões anteriores, embora muitas vezes oculta da população, é gigantesca e tem levado a cidade a ultrapassar esse limite constitucional há tempos.
Não é uma mera suposição; é uma constatação feita pelo próprio Secretário de Administração em audiência na Câmara.
A escassez de profissionais em escolas, creches, postos de saúde da família e a falta de guardas municipais são consequências diretas dessa irresponsabilidade fiscal.
Poços de Caldas clama por uma gestão que olhe para o futuro, que se desvincule do passado recente.
A reeleição de gestões anteriores pareceu mais ligada à ausência de adversários políticos robustos do que a uma administração verdadeiramente eficiente.
A cidade carece de planos de curto, médio e, principalmente, longo prazo. Tudo parece ser pensado apenas para o hoje, para a divulgação imediata, por menor que seja a ação.
Um exemplo gritante dessa miopia administrativa é a questão da reserva de Terras Raras, que coloca Poços de Caldas no centro das atenções mundiais.
No entanto, o que se ouve são apenas aplausos da gestão para "grandes" empresas que buscam licenciamento para exploração.
Essas empresas, muitas vezes com capital de pequeno porte, conseguem convencer as autoridades municipais a conceder licenças e certificados de uso e ocupação do solo, com o provável intuito de revender esses direitos a grandes mineradoras globais.
O bem-estar dos moradores e a garantia de água para abastecimento básico parecem ser secundários diante dos interesses corporativos, digeridos com facilidade nos corredores da Prefeitura.
Confesso que, em mim e em muitos que ousam questionar, há um cansaço profundo.
É exaustivo combater o marketing digital massivo que as instituições públicas utilizam.
Como um amigo sabiamente me disse: "Em briga de internet, ganha quem tem mais tempo".
E, com tantas outras responsabilidades, acabamos por vezes vencidos. Contudo, a esperança persiste ao ver pessoas dispostas a questionar, a recusar falsos números e desculpas esfarrapadas, a não enaltecer aqueles que nos legaram essa situação.
É imperativo que pensemos nossa cidade para as próximas décadas de maneira minuciosa e inteligente, sem o brilho efêmero do marketing, mas com os pés firmes no chão e consciência.
É um convite a todos para participarem ativamente, para irmos além da "maquiagem" administrativa - como o próprio Prefeito mencionou dias atrás - e buscarmos a verdadeira "plástica" do futuro para Poços de Caldas.
* Felipe Mesquita de Paula é jornalista
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