Viúvas e vivandeiras do autoritarismo brasileiro

Set 2, 2025 - 18:22
Viúvas e vivandeiras do autoritarismo brasileiro

Dos termos e expressões contidas no título deste artigo, talvez a palavra "vivandeiras" gere alguma dúvida. Na nossa história, são conhecidas, e importantes, desde a Guerra do Paraguai, inclusive para as tropas paraguaias, que também possuíam suas vivandeiras. 

Seriam as mulheres que acompanhavam as tropas, com funções diversas. Providenciavam desde suprimentos a divertimentos, mediante paga, naturalmente. Proporcionavam conforto material, espiritual, cuidados e até sexo. 

Eram "multimissão", a exemplo dos modernos equipamentos militares. Se fizeram presentes também na Coluna Prestes. Como pode-se ver, não se definiam ideologicamente.   

Modernamente, ganharam destaque a partir da fala do general Castello Branco, líder militar do Movimento golpista de 1964. 

Desta feita com atuação política: o general se queixava de que as "vivandeiras buliam com os granadeiros em seus bivaques". 

A principal seria Carlos Lacerda, udenista, ex-governador e jornalista, entre outras, a pedir intervenção militar de modo recorrente, num "sambinha de um golpe só". 

Recentemente, as vivandeiras bolsonaristas acamparam diante dos quartéis, amplificando nacionalmente os reclamos pela intervenção militar. 

Suas demonstrações e peripécias, gravadas e divulgadas à exaustão, mostraram um grupo disfuncional, uma escória ridícula, massa de manobra das elites autoritárias - que ajudaram a patrocinar o triste espetáculo. 

Centenas delas foram processadas, condenadas e encarceradas, após a quebradeira do Dia 08 de janeiro, cumprindo penas no presídio da Papuda. Havia de tudo nesse grupo. 

O colunista mineiro Luiz Tito, com fino humor, destacava as mulheres "casamenteiras", que participavam dos acampamentos, defronte aos quartéis, com finalidade matrimonial. 

Mostravam, sobretudo, um baixo critério de seleção. Já que iriam desposar maridos claramente ridículos e equivocados. 

Eles próprios em busca de um "casamento" com a ditadura. É mole? Essa tradição autoritária é tão antiga quanto o Brasil. 

E tolos são aqueles que a subestimam. Ao longo de nossa história, o autoritarismo seria uma marca prevalente. 

O brasilianista norte-americano, Thomas Skidmore, trata de modo conciso dos fatos da nossa história, em "Uma história do Brasil" (Paz e Terra, São Paulo). 

Menciona nossa vertente autoritária. Destacando, contudo, dois momentos políticos brilhantes, com ótimos resultados estruturais. 

Capitaneados, coincidentemente, por dois mineiros: o Plano de Metas, desenvolvido por JK, e o Plano Real, deflagrado por Itamar Franco. 

De um modo geral, este artigo leva em conta a mencionada bibliografia. Se pensarmos que a história oficial do Brasil começou em 1500, há pouco mais de 500 anos, durante 322 anos fomos Colônia de Portugal. 

Certamente, o sistema de dominação mais autoritário conhecido, desde a Idade Moderna. Seguiu-se um período Imperial, até 1889, substituído pela nossa primeira ditadura militar. Que antecedeu a República Velha, que durou até 1930. 

Um regime oligárquico, igualmente autoritário. Em 1930 teríamos a primeira Revolução brasileira. Talvez a única, embora haja controvérsias. 

Ainda que liberal, e antioligárquico, o regime instalado revelou-se a primeira ditadura varguista, seguida pelo Estado Novo, em 1937, outra ditadura varguista. O Brasil só viveu a democracia moderna, pela primeira vez, em 1945. 

Cerca de 445 anos após seu descobrimento. Esse experimento democrático durou pouco. Foi interrompido em 1964. Em 1988, formalmente, promulgamos a "Constituição cidadã". Finalmente, pondo o Estado brasileiro livre do suposto "entulho autoritário". 

Passado esse período de novo experimento democrático, temos, em 2022/2023, nova tentativa golpista. Reforçadas pelas vivandeiras acampadas e estridentes, as sisudas viúvas da ditadura, pós-1964, projetaram novo golpe. 

Mas, desta feita, sem o apoio logístico das Forças Armadas. E quem entende um pouco de campanha, de qualquer tipo, sabe que a logística seria o ingrediente principal. 

Não que o argumento armado não seja importante. Mas de nada vale um indivíduo armado despreparado, ou sem um plano estratégico. 

Não consegue nem marchar.  Veio então o golpe "tabajara", liderado pela escória bolsonarista. O resultado, catastrófico, está em julgamento, a ser certamente contestado, seja qual for a sentença.  

Mas a história, que a todos prevalece, há de se pronunciar, no devido tempo. Ninguém costuma sobreviver à história. 

Seja seu argumento ou sua reputação. Em perspectiva, vemos melhor. E as perspectivas não parecem boas para a direita bolsonarista.  

* Marco Antônio Andere Teixeira é advogado, historiador e cientista político. E-mail: marcoandere.priusgestao@gmail.com  

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