Poluição por Terras Raras: China e Poços de Caldas

A mineração e o processamento de terras raras são atividades conhecidas por gerarem significativa poluição, tanto no solo quanto na água e no ar

Jun 27, 2025 - 11:42
Poluição por Terras Raras: China e Poços de Caldas

A mineração e o processamento de terras raras são atividades conhecidas por gerarem significativa poluição, tanto no solo quanto na água e no ar. 

A China, maior produtora global desses minerais, já enfrentou graves consequências ambientais devido à exploração inadequada. 

Enquanto isso, o projeto de mineração em Poços de Caldas (MG), liderado por empresas australianas te possibilidade de gerar impactos similares. 

Neste texto, comparo os efeitos da poluição gerada pelas terras raras na China e os riscos potenciais para Poços de Caldas, avaliando se a intensidade da contaminação será equivalente e se os danos aos entornos serão igualmente relevantes.

1. Poluição por Terras Raras na China: Um Legado de Degradação Ambiental
A China responde por cerca de 70% da produção global de terras raras, concentrada principalmente na Mongólia Interior (Bayun Obo) e em Jiangxi. 

O processo de extração e refino desses elementos envolve substâncias tóxicas, como ácidos fortes (Sulfúrico, Nítrico e Clorídrico) e metais pesados (Tório, Urânio, Cádmio e Chumbo).

Principais impactos ambientais na China:
• Contaminação da água: Rejeitos químicos infiltram-se no solo e atingem lençóis freáticos, tornando rios e lagos impróprios para consumo. Em algumas regiões, a água apresentou níveis de radioatividade acima do permitido devido ao tório e urânio associados às terras raras.

• Degradação do solo: Áreas próximas às minas tornaram-se estéreis, com alta concentração de metais pesados, inviabilizando a agricultura.

• Poluição do ar: A queima de resíduos e a liberação de partículas finas durante o beneficiamento geram problemas respiratórios na população local.

• Impactos na saúde: Estudos associam a exposição prolongada a esses poluentes com câncer, doenças pulmonares e malformações congênitas. 

A China só passou a regulamentar mais rigidamente o setor após protestos e denúncias internacionais, mas muitas áreas já estão irremediavelmente contaminadas.

2. Poços de Caldas: Riscos de Repetir o Mesmo Cenário?
Poços de Caldas (MG) possui uma das maiores reservas de terras raras do Brasil, com destaque para a monazita, mineral que contém tório e urânio. 

As companhias australianas planejam explorar esses recursos, mas a região já tem histórico de contaminação devido às atividades da Usina de Urânio das Indústrias Nucleares do Bra-sil (INB), desativada em 1995. 

Já se passaram 30 anos e os resíduos da INB ainda não estão em local seguro.

Fatores que podem influenciar a poluição em Poços de Caldas:
• Tecnologia e regulamentação: As empresas australianas afirmam que utilizarão métodos mais modernos e sustentáveis que os empregados na China, reduzindo o uso de produtos químicos agressivos. No entanto, mesmo processos avançados geram resíduos perigosos.

• Presença de elementos radioativos: A monazita contém Tório, que, apesar de menos radioativo que o Urânio, ainda exige manejo cuidadoso para evitar contaminação.

• Vulnerabilidade hídrica: A região é rica em nascentes e aquíferos. Um vazamento de rejeitos poderia afetar o abastecimento de água em larga escala. Poços de Caldas e região já viveram recentes episódios de falta de água para consumo humano. Vamos interromper a operação das mineradoras quando isso tornar a ocorrer?
• Fragilidade do licenciamento ambiental: O Brasil tem histórico de licenci-amentos frágeis em grandes projetos minerários, como em Mariana e Bruma-dinho. A novas legislação parece que intensificará essa fragilidade.

3. A Poluição Será Equivalente?
É difícil prever se a poluição em Poços de Caldas atingirá a mesma magnitude da chinesa, mas alguns pontos devem ser considerados:
• Escala de produção: A China extrai terras raras em volumes muito maiores, o que amplia seus impactos. Em Poços de Caldas, a produção será menor, mas ainda significativa.

• Gestão de rejeitos: Se as australianas adotarem medidas muito rigorosas de contenção (como barragens seguras e tratamento de efluentes), os danos podem ser mitigados. Caso contrário, o risco de contaminação será alto.

• Contexto geológico e climático: Poços de Caldas tem solos mais úmidos e chuvas intensas, o que pode facilitar a lixiviação de poluentes para rios e aquíferos. Fatalmente nossas águas serão contaminadas.

4. Conclusão: Os Entornos Serão Igualmente Afetados?
Embora a intensidade da poluição em Poços de Caldas possa ser menor que a chinesa devido à menor escala, os impactos locais podem ser igualmente relevantes se não houver controle independente e eficiente. 

A região já sofre com passivos ambientais da mineração de Urânio, e a atividade de terras raras em diferentes pontos de mineração e por mais de uma empresa só tende a agravar esse cenário. 

A experiência chinesa mostra que, sem fiscalização rigorosa e tecnologias de mitigação, a mineração de terras raras gera danos terríveis e duradouros. 

Portanto, Poços de Caldas precisa de monitoramento independente, transparência nos processos e planos de recuperação ambiental claros para evitar um desastre ecológico semelhante.

Enquanto a China lida com um legado de poluição já consolidado, o Brasil ainda tem a chance de evitar erros semelhantes - mas isso dependerá da efetividade das políticas ambientais e do compromisso real das empresas com a transparência e a sustentabilidade. 

O envolvimento da população dessas cidades tem de ser forte e nosso Abaixo Assinado (peça cópias por meu e-mail para se unir à nossa luta) demonstra que por aqui a maioria é contra à destruição de nosso Meio Ambiente, a ameaça à nossa Saúde e a agressão à nossa bela Natureza.

* Roberto Seabra da Costa é bacharel em Física, mestrado e trabalho por 2 anos no IPEN e Tradutor Técnico. E-mail: roberto.seabrabr@outlook.com

Qual é a sua reação?

like

dislike

love

funny

angry

sad

wow