Editorial 10/07/25

Confira a opinião de hoje do Jornal da Cidade

Jul 9, 2025 - 20:44
Jul 10, 2025 - 14:37
Editorial 10/07/25

A Justiça é cega, mas enxerga quando quer

Respaldado por dois mandatos consecutivos como prefeito de Poços de Caldas (2017-2024), parecia que o céu era o limite para Sérgio Azevedo. 

Chegou-se ao ponto de até mesmo ele e apoiadores sonharem com uma candidatura ao governo do Estado, algo improvável de acontecer, haja vista a pouca representatividade de Sérgio Azevedo na política regional e estadual. 

Mas, ainda que não passasse de conversa fiada, a ideia foi sustentada por algum tempo, especialmente como forma de dar a impressão de que a sua gestão foi algo sem precedentes na história de Poços de Caldas. Só que não.

Quando tal pretensão se mostrou inviável, passou-se a sonhar com algo mais tangível, como uma vaga na Câmara dos Deputados. Como se fosse fácil. 

Não há dúvidas de que Sérgio se dedicou integralmente ao cargo de prefeito, mas o seu perfil centralizador - para não dizer muitas vezes autoritário - fez com que ele colecionasse muitas inimizades ao longo dos últimos oito anos. 

Cercado por bajuladores que poucas vezes tinham coragem de contestá-lo, Sérgio passou a achar que podia tudo. 

As críticas, para ele, vinham sempre de quem já esteve na Prefeitura e não deu conta do recado ou de pessoas incomodadas com sua "gestão bem-sucedida". 

A sensação de que estava blindado contra tudo e contra todos era evidente. Lembremos da polêmica presença dele, como candidato à reeleição, na entrega de chaves de conjunto habitacional em plena campanha eleitoral de 2020, que inexplicavelmente não resultou em punição. 

Na Câmara Municipal, ele passou incólume pela CPI das Férias. Pela CPI da Saúde, até o momento, ainda não sobrou nada para ele. 

Talvez o auge do narcisismo do ex-prefeito foi em 2023, quando o seu salário subiu 28%, passando de R$ 28 mil para R$ 37 mil, justificado com a alegação de "merecimento", já que era o "prefeito mais barato do Brasil pelo tanto que trabalhava". E a cara não ficou vermelha. 

Bem, na verdade, talvez o auge não tenha sido esse episódio, mas, sim, a construção do Centro Administrativo. Intimamente, seria um fiasco para ele encerrar seus dois mandatos sem algo para marcar sua passagem. 

E assim foram investidos mais de R$ 60 milhões, incluindo a permuta com o Complexo Santa Cruz, para a construção de um edifício que tem seu valor por unificar a maior parte da administração pública, mas que ainda hoje não é totalmente funcional. 

Sem poder disputar a reeleição, identificava seu candidato à sucessão como "o prefeito do Sérgio". Foi até preciso fazer camisetas com o próprio nome do candidato para mostrar que ele não era o Sérgio. Foi inevitável passar a ser chamado de "Sérgio Ney".

O ex-prefeito agora tenta minimizar os danos de sua nomeação, pedindo afastamento do cargo antes de ser notificado pela Justiça, mas não há dúvidas de que o estrago já foi feito. 

Um trecho da defesa do prefeito Paulo Ney foi muito sintomático: ele apenas indicou Sérgio, a responsabilidade pela nomeação é do Conselho de Administração do DME. Ou seja, se ele se tornar um fardo político muito pesado, poderá ser deixado pelo caminho.

Resta saber se Sérgio irá se contentar apenas em voltar a ser engenheiro na Secretaria de Obras ou se irá pleitear um outro cargo na gestão. 

Num passado não muito distante em Poços, já vimos o que acontece quando criador e criatura se embatem.

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