Agosto Lilás
A curiosa a cor escolhida para se comemorar em agosto o mês de conscientização e combate à violência contra a mulher.
Lilás! Lilás é a cor do movimento feminista e curiosamente é também a cor de hematomas, é a cor da marca deixada pelo murro, pelo soco, pelo pontapé.
É cor da dor, do sofrimento, de uma autoestima que está tão fragilizada que muitas vezes nem consegue pedir ajuda.
Contudo, a violência não começa pelo empurrão, pelo tapa na cara. Se fosse assim, a relação não duraria, não seriam meses ou anos com a mesma pessoa, afinal nenhuma mulher inicia um namoro desejando ser espancada.
A violência chega em conta gotas, sutil, devagar, quase silenciosa em gestos de controle do tipo "essa saia está curta" ou "essas amigas não são boas companhias".
O comentário não chega sozinho. Geralmente vem acompanhado de algum chamego, algum agrado, de modo que a mulher acredite que estar do lado daquele homem é o melhor dos mundos.
Ela passa a acreditar que às vezes foi ingênua com as amigas, que talvez elas não sejam tão boas mesmo, quiçá tenham inveja dela não ser mais solteira. Dividir para conquistar. Essa é a máxima para controlar qualquer pessoa ou grupo.
Colonizadores europeus empregaram essa tática acirrando o ódio entre uma etnia indígena contra as outras, alimentando a divergência entre um grupo africano e o outro.
Como se faz isso? Reforça a discórdia, impede que se vejam como semelhantes, planta a maledicência de modo que as amigas que sempre foram próximas, sejam apontadas como fofoqueiras, vagabundas, briguentas, loucas.
Resumindo: más companhias! Cercar! Outra estratégia de guerra e os homens são bons nisso. O cerco impede a comunicação, deixa um país praticamente a própria sorte, sem abastecimento de energia elétrica, água, medicamentos, ajuda humanitária.
Exemplo recente é o que acontece na Palestina com os ataques de Israel. Na vida a dois, é a realidade de milhares de mulheres confinadas a apenas ao ambiente doméstico, cercada pelos muros ou portão da própria casa. Mas como ela pode aceitar? Haverá essa pergunta.
Acontece que o patriarcado, que é milenar, se faz pela via ideológica e pela violência. Só que o campo das ideias não surge do nada, mas sim por questões materiais e milenarmente quando o homem soube que ele também era responsável pela geração de um filho, cercou a mulher para garantir que as propriedades seriam de seu descendente.
Cercamento de terra, cercamento da mulher e, portanto, mulher tratada como posse, como propriedade. Ora, se é objeto entende-se que pode ser tocada, afinal também passamos a mão em uma mesa, numa almofada querendo sentir a textura, a firmeza do material.
Se é objeto pode-se controlar seu horário, suas roupas, suas companhias, como se fosse uma boneca na qual decidimos a hora de brincar ou a brincadeira em si. Se é objeto, pode ser chutada como bola ou um sapato velho.
Se é objeto, pode ser esfaqueada como uma carne dura, intransigente, forte, que por teimar em ceder, foi cortada. Então a violência contra as mulheres não é apenas por mau-caratismo de alguns homens.
Ocorre porque faz parte do sistema patriarcal que coloca homens como sujeitos de poder e mulheres como objeto, obedientes ao Senhor marido, ao Senhor Mercado ou ao Senhor Estado.
Basta lembrar nossas histórias infantis, em que o sonho da princesa é viver no castelo com o príncipe e assim a projeção de futuro de inúmeras meninas foi gradualmente elaborado com vistas ao casamento. Ninguém compartilhou conosco que o discurso de que "até que a morte os separe" não pode ser em cima de nosso feminicídio e que na verdade quando o respeito, a confiança ou companheirismo acabaram.
isso já um decreto de morte da relação. Quando começa a violência física é porque outras já faziam morada.
E por isso, a Lei Maria da Penha, que foi promulgada em agosto de 2006 e dá origem a campanha do agosto lilás, deixa claro outros tipos de violência, até para se evitar um crescimento desse quadro. São cinco tipificações: moral, psicológica, sexual, patrimonial e a física.
Essas outras violências não são menores e qualquer situação de uma delas já merece a atenção, pois ao fragilizar a mulher, geralmente ela não terá forças de sair sozinha dessa relação.
Portanto, é imprescindível uma rede de apoio, seja da família, de amigos, vizinhos, instituições como Polícia Militar, CRAS, disque 180 e tantos outros espaços que podem servir de acolhimento, escuta, orientação e defesa de seus direitos.
Uma das explicações da cor lilás no feminismo é que seria a mistura cromática entre o azul e o rosa, cores atribuídas aos sexos masculino e feminino respectivamente.
Nesse sentido, o azul não sobressai, nem tampouco o rosa. Se misturam, mostrando que tanto as cores quanto as pessoas podem se misturar, trocar pigmentações culturais, se encher do novo que é trazido pelo diferente.
A cor alheia não será apagada e se defenderá que a vida também não seja ceifada. Não se trata de inverter a lógica do machismo e a mulher passar a oprimir o homem, pois o feminismo é um projeto de igualdade de gênero.
Assim, que o lilás, seja de janeiro a janeiro a cor da liberdade, de um projeto humanizador e não de dor ou de morte.
* Ana Paula Ferreira é escritora do livro "Resistência: reflexões sobre sociedade, feminismo e educação"
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