A voz revolucionária de Angela Ro Ro
Primeiro álbum da artista revela-se uma obra-prima que mostra sua voz única e a genialidade de suas composições
Ouvi falar pela primeira vez de Angela Ro Ro por volta de 1996, pelo fato de uma de suas músicas, "Amor, Meu Grande Amor", ter sido incluída em um álbum do Barão Vermelho.
Naquela época, falava-se de Angela muito mais pela sua personalidade forte do que pelo seu trabalho artístico.
Um sinal de que ela estaria entrando em uma fase de declínio na carreira, o que veio a se confirmar anos depois.
Agora, há alguns meses, me apareceu como recomendação no YouTube Music o primeiro álbum de Angela Ro Ro, de 1979, que até então não conhecia.
Com título homônimo, trazia na capa uma bela imagem da artista. Ouvi várias vezes durante alguns dias e depois, eventualmente aparecia alguma das músicas como recomendação do algoritmo.
Ontem, com a notícia do falecimento de Angela Ro Ro, voltei a me lembrar desse álbum de uma artista de um talento musical ímpar, mas possivelmente injustiçado por falta do devido reconhecimento.
Para compreender a dimensão de sua arte, é essencial revisitar esse primeiro trabalho, que trouxe um frescor para a música brasileira.
Sua voz, rouca, mas potente e cheia de nuances, é o que conduz cada canção. Ela transita com maestria entre a sutileza do canto sussurrado e a explosão de emoção dos graves.
Essa versatilidade, combinada a uma interpretação visceral, conferiu-lhe uma identidade única no cenário musical brasileiro.
As composições do disco, em sua maioria de autoria da própria artista, são um reflexo de sua genialidade. Letras que abordavam temas como amor, desilusão e a complexidade das relações humanas com uma franqueza inédita, misturavam-se a arranjos sofisticados que uniam elementos do blues, jazz e MPB.
Canções como “Amor, Meu Grande Amor” e “Gota de Sangue” tornaram-se clássicos instantâneos e fizeram a fama da artista.
"Cheirando a Amor", faixa de abertura, estabelece imediatamente o tom do álbum, com a mistura de blues e MPB que se tornaria uma marca de Angela.
Destaco também "Agito e Uso", que demonstra a versatilidade de Angela, com uma pegada mais rítmica e de samba-canção, tanto que já foi regravada por outros grandes nomes da música brasileira, como Simone e Zélia Duncan.
E tem ainda "A Mim e a Mais Ninguém", um hino de amor-próprio e autossuficiência, com uma letra poderosa e melodia marcante. O trecho "Todo amor que eu amei/ No fundo eu dediquei/ A mim e a mais ninguém" resume bem a mensagem que se quer passar.
Todas essas músicas, juntamente com o já citado sucesso de "Amor, Meu Grande Amor", consolidaram a reputação de Angela Ro Ro como uma compositora e intérprete de talento ímpar, capaz de misturar a doçura do romantismo com a crueza da vida real. Uma artista para se ouvir sempre.
* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade
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