A Morte de Ivan Ilitch: um espelho inquietante da existência moderna
Recentemente, tive meu primeiro contato com a obra do escritor russo Liev Tolstói, lendo "A Morte de Ivan Ilitch".
É um livro relativamente curto, com apenas 96 páginas, em uma edição acessível da Editora Principis, que custou menos de R$ 14.
Apesar de sua aparente simplicidade, a obra mergulha em questões existenciais profundas, tornando-a uma leitura desafiadora, porém recompensadora.
A linguagem é direta e fluida, o que não diminui a intensidade do tema central: a morte e o balanço de uma vida vazia.
Tolstói, um dos pilares da literatura russa, com sua prosa densa e introspectiva, entrega aqui uma crítica contundente à superficialidade da sociedade.
A literatura russa do século XIX, período em que Tolstói se destacou ao lado de Dostoiévski e Turguêniev, é conhecida por sua profundidade psicológica, por abordar dilemas morais e por uma exploração incansável da alma humana.
"A Morte de Ivan Ilitch" é um belo exemplo dessa tradição, revelando a futilidade das buscas materiais e a hipocrisia das relações sociais.
A única "dificuldade" inicial para o leitor pode ser a familiarização com os nomes complexos dos personagens russos, algo que se resolve naturalmente ao longo das primeiras páginas.
Ivan Ilitch e a perseguição por status
A trajetória de Ivan Ilitch é um espelho desconfortável da busca desenfreada por status e reconhecimento social que persiste em nossos dias.
Ele vive uma vida pautada pelas convenções, almejando sempre o próximo degrau na carreira e na escala social, sem jamais questionar o verdadeiro sentido de sua existência.
Sua casa, seus móveis, suas interações, tudo é meticulosamente planejado para refletir uma imagem de sucesso e respeitabilidade.
Essa obsessão, que o afasta de qualquer conexão genuína, é o cerne de sua tragédia. A doença que o acomete e que o leva à morte funciona como um catalisador para seu tardio despertar.
É somente no leito de morte que Ivan Ilitch percebe o quão vazia foi sua vida, preenchida por conveniências e aparências.
Essa revelação, dolorosa e solitária, oferece um alerta mais do que direto sobre as prioridades que muitas vezes adotamos na vida moderna.
E para quem se preocupa com spoilers: o próprio título do livro já aponta o destino do personagem, e logo nas primeiras linhas descobrimos que ele já está morto.
Burocracia estatal: do século XIX ao "Brazil - O Filme"
Outro ponto de ressonância da obra com a contemporaneidade é a presença marcante da burocracia estatal. Ivan Ilitch, um juiz de instrução, está imerso em um sistema legal complexo e, por vezes, desumano.
A rigidez dos processos, a impessoalidade das interações e a frieza das leis são elementos que contribuem para a desumanização de sua existência.
Embora Tolstói não se aprofunde em uma crítica direta à burocracia como foco central, ela serve como pano de fundo para a alienação de Ivan Ilitch.
Não há como não se lembrar da representação quase satírica do cult cinematográfico "Brazil - O Filme" (1985), de Terry Gilliam.
No filme, a burocracia é elevada ao absurdo, com formulários intermináveis, regulamentos ilógicos e uma máquina estatal que esmaga o indivíduo comum.
A ironia e o humor negro do filme, embora distintos do tom sombrio de Tolstói, compartilham a crítica à despersonalização e à ineficácia de sistemas excessivamente regulamentados.
Ambos, à sua maneira, ilustram como a rigidez das estruturas pode sufocar a individualidade e a própria vida.
"A Morte de Ivan Ilitch" é, portanto, muito mais do que uma história sobre o fim da vida. É um convite à reflexão sobre o que realmente importa, sobre a autenticidade das nossas escolhas e sobre os perigos de uma vida vivida em função das expectativas alheias.
Uma leitura que, apesar de seu peso, oferece uma oportunidade única de autoconhecimento e uma crítica atemporal às armadilhas da sociedade.
* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade. E-mail: joaogabrielpcf@gmail.com
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