A campanha acabou
Um ano se passou desde as eleições municipais de 2024, mas, em Poços de Caldas, o clima político ainda é de campanha.
A cada entrevista, anúncio ou pronunciamento oficial, fica evidente a manutenção de um discurso de confronto, típico do período eleitoral.
O embate entre Executivo e Legislativo tem ocupado o espaço que deveria ser dedicado ao planejamento e à gestão pública.
Talvez o conselho mais simples e necessário ao atual governo seja este: a campanha acabou. A comunicação do prefeito Paulo Ney e de sua equipe se apoia em anúncios fragmentados e respostas pontuais a críticas, muitas vezes sem clareza, profundidade ou segurança sobre a execução das promessas.
O governo demonstra dificuldade em consolidar uma narrativa administrativa coerente e efetiva, preferindo reagir às cobranças de vereadores, moradores e imprensa - em vez de propor soluções concretas.
O discurso de continuidade em relação à gestão anterior, do ex-prefeito Sérgio Azevedo, também trouxe consigo uma herança pesada.
A dívida fundada do município já ultrapassa R$ 650 milhõ-es, representando um aumento de mais de 500% em apenas quatro anos.
O número é resultado direto de um governo que negligenciou o planejamento de longo prazo, o equilíbrio fiscal e o interesse coletivo.
A atual administração tenta ju-tificar o desequilíbrio financeiro alegando que “todos os municípios enfrentam dificuldades”.
No entanto, há cidades brasileiras que optaram por escolhas responsáveis e hoje mantêm contas equilibradas.
Em Poços, as decisões foram outras: a construção de um novo Centro Administrativo sem plano de redução de custos com aluguéis; a reforma de calçadas em áreas centrais - justamente onde os proprietários têm condições de custear a manutenção; e a elaboração de diagnósticos de mobilidade urbana que jamais saíram do papel.
Enquanto isso, a passagem de ônibus chega a R$ 8,20, em um momento em que grandes municípios discutem a tarifa zero.
Essas decisões, somadas, moldam o presente e comprometem o futuro da cidade. No campo ambiental e econômico, a postura da Prefeitura também é preocupante.
O Planalto de Poços de Caldas está entre as regiões mais promissoras do mundo para a mineração de Terras Raras, recurso estratégico na transição energética global.
Ainda assim, o governo municipal concedeu o certificado de uso e ocupação do solo a uma empresa australiana sem exigir contrapartidas sociais, ambientais ou urbanísticas.
O processo de licenciamento estadual acabou envolvido em operação da Polícia Federal, com prisões de servidores públicos, e a Prefeitura preferiu lavar as mãos, afirmando não poder interferir. Pode, sim - e deve.
Enquanto isso, o conflito entre o Executivo e o Legislativo se arrasta. Embora o discurso oficial fale em “boa relação” com os vereadores, a prática mostra o contrário.
As redes sociais se tornaram o palco principal de embates, com críticas públicas e respostas irônicas, sempre rotuladas como “politicagem”.
Mas política, em sua essência, é diálogo, e não disputa. É hora de respirar, conversar e unir forças - vereadores, secretários, servidores e, principalmente, a população, que sente no cotidiano as consequências das más escolhas administrativas.
A cidade precisa de escuta ativa, planejamento e comunicação eficiente, não de ironias ou justificativas eleitorais. Há pessoas competentes e dispostas a colaborar, inclusive dentro da própria Prefeitura.
O que falta é vontade política de olhar para frente. Porque muitas ideias que pareciam boas no passado hoje se revelam grandes equívocos - e continuam penalizando Po-ços de Caldas e seus cidadãos. A campanha acabou. É hora de governar.
* Felipe Mesquita de Paula é jornalista
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