Os Beatles e a jornada psicodélica: uma análise de cinco clássicos
A psicodelia se tornou um elemento central na discografia dos Beatles a partir de 1966
A partir de 1966, com o lançamento de "Revolver", os Beatles abandonaram a imagem de "garotos bonzinhos" do pop e mergulharam no universo psicodélico.
Inspirados por substâncias alucinógenas e a efervescência cultural da época, a banda começou a explorar novas sonoridades, técnicas de gravação inovadoras e letras que refletiam uma busca por expansão da consciência.
A psicodelia se tornou um elemento central na discografia dos Beatles, moldando álbuns como "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" e servindo de base para o que viria a ser conhecido como rock progressivo que dominou a década seguinte.
Admito que nunca fui um grande fã dos Beatles, mas passei a me interessar mais por esse momento de transição da banda quando, tardiamente, ouvi pela primeira vez "Tomorrow Never Knows" há alguns anos.
É a minha música preferida. E listei outras quatro, para quem quiser conhecer esse lado da banda que talvez seja pouco explorado.
1. Tomorrow Never Knows
(Álbum: Revolver, 1966)
Considerada por muitos a primeira música psicodélica da história, "Tomorrow Never Knows" é uma obra-prima de experimentação.
A canção de John Lennon, inspirada pelo Livro Tibetano dos Mortos, utiliza a técnica do tape loop (fitas gravadas e repetidas) e vocais distorcidos para criar uma atmosfera hipnótica e alucinógena.
A bateria de Ringo Starr, com seu ritmo repetitivo e pesado, simula uma batida tribal, enquanto as guitarras e os sons de fita invertidos criam um ambiente sonoro totalmente inovador para a época.
2. Strawberry Fields Forever
(Álbum: Magical Mystery Tour, 1967)
Um dos maiores sucessos dos Beatles, a canção de Lennon é uma imersão na nostalgia e na melancolia. A faixa, gravada com duas versões unidas em uma só, apresenta uma mistura de instrumentos de cordas, instrumentos de sopro e a bateria de Ringo, todos gravados com diferentes velocidades e em tons distintos.
Essa técnica, somada à letra abstrata e onírica, cria uma sensação de desorientação e sonho. "Strawberry Fields Forever" é um retrato sonoro da busca de Lennon por um lugar de refúgio na infância.
3. A Day in the Life
(Álbum: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, 1967)
A grandiosidade de "A Day in the Life" reside em sua capacidade de unir duas canções distintas em uma única obra.
A faixa, de Lennon e McCartney, transita entre a melancolia e a esperança. A orquestra atinge um clímax apocalíptico no meio da música.
Os acordes de piano, gravados em um estúdio com vários pianos tocando ao mesmo tempo, criam um som denso que ecoa a sensação de vazio e incerteza da letra.
4. I Am the Walrus
(Álbum: Magical Mystery Tour, 1967)
"I Am the Walrus" é um retrato da loucura e do surrealismo. John Lennon, em sua busca por um sentido na vida, criou uma letra sem sentido, inspirada por versos infantis, e a uniu a uma melodia complexa e caótica.
A canção conta com um arranjo orquestral experimental, que inclui violinos, violoncelos e flautas, além de trechos de um programa de rádio. A voz de Lennon, distorcida e carregada de efeitos, cria uma atmosfera alucinógena e perturbadora.
5. Within You Without You
(Álbum: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, 1967)
De autoria de George Harrison, "Within You Without You" é uma fusão da psicodelia com a música indiana. Gravada com instrumentos indianos, a canção explora temas como a meditação, a espiritualidade e a busca pela verdade.
A letra, inspirada no guru Maharishi Mahesh Yogi, convida o ouvinte a uma jornada interior. O arranjo musical, com a mistura de sonoridades orientais e ocidentais, é um exemplo da experimentação e da busca por novas fronteiras musicais que marcaram a fase psicodélica dos Beatles.
* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade
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