A Promoção Social em Poços de Caldas: entre narrativas e resultados
Hoje abracei Sílvia Cristina Lopes Fernandez e, nesse gesto simples, lembrei-me imediatamente de seu filho, Celso Pateli.
Recordei o quanto aprendi com ele e de como sua memória reacende em mim a esperança nas pessoas. Celso foi um defensor incansável das populações em situação de rua, da comunidade LGBT, dos vulneráveis - de todos aqueles que, muitas vezes, não encontram voz. Sua luta era verdadeira, visceral, feita com o coração.
E sua contribuição permanece viva em cada pessoa que teve o privilégio de conviver com ele. Essa lembrança me faz refletir sobre a situação da Promoção Social em Poços de Caldas nos últimos anos. Historicamente tratada como um dos grandes problemas do município, a área sempre pareceu cercada por uma espécie de blindagem - seja por parte da imprensa, seja pelo próprio poder público.
Exalta-se de maneira quase automática o trabalho da Secretaria, cuja conduta raramente é questionada pelos seus pares, pela vereança ou pelos veículos de comunicação.
Entretanto, cada vez que o assunto vem à tona, as respostas já são conhecidas: “É um trabalho muito difícil”, “Não há muito o que fazer”, “As abordagens são feitas, mas não podemos ir além”.
São frases repetidas há anos, como um mantra destinado a encerrar qualquer debate mais profundo. Mas os números desmentem esse conformismo.
Ao consultar o Portal da Transparência, fica evidente que a Secretaria de Promoção Social dispõe de valores expressivos, além das quantias repassadas a entidades conveniadas.
Estamos falando de milhares e milhares de reais investidos. No entanto, quando comparamos esses recursos com os resultados apresentados, o contraste é gritante. A efetividade das ações é, no mínimo, questionável.
Chega a ser quase um tabu discutir Promoção Social em Poços de Caldas. A defesa mais recorrente é a suposta complexidade da área - como se o volume de dinheiro aplicado não devesse, no mínimo, refletir em políticas públicas mais estruturadas, em soluções mais visíveis, em avanços concretos.
Esse abismo entre investimento e resultado não pode mais ser ignorado. Reconheço que se trata, sim, de uma pasta complexa e de problemas que desafiam qualquer gestão. Mas não podemos ser reféns da narrativa de que “tudo está sendo feito dentro do possível”.
Não está. E fingir que está é desonesto com a população e, principalmente, com aqueles que mais precisam. É muito dinheiro investido para tão pouca efetividade.
É muito discurso para tão poucos resultados. A boa relação da Secretaria com a imprensa e com outras instâncias do município não pode continuar servindo como escudo para a ausência de soluções reais.
Quando analisamos friamente os dados, o que se revela é simples - e duro: a Promoção Social em Poços de Caldas fracassa, sistematicamente, naquilo que deveria ser sua essência.
E enquanto isso, pessoas permanecem nas ruas. Famílias seguem vulneráveis. Problemas já conhecidos se repetem, ano após ano, sem perspectiva de mudança.
Que a memória de pessoas como Celso Pateli nos lembre de que políticas públicas não podem se limitar a discursos. Elas precisam de resultados. Precisam de coragem. Precisam de verdade.
* Felipe Mesquita de Paula é jornalista
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