Vamos falar de mobilidade urbana?
Espero um “sim” como resposta. E começo contando uma pequena história. Em 2020, durante as eleições municipais daquele ano, tive a informação de que o então prefeito, que buscava a reeleição, havia entrado em contato com o professor Ciro Biderman, da Fundação Getulio Vargas (FGV), para desenvolver um Plano de Mobilidade Urbana para nossa cidade.
Ciro participou ativamente da construção do Plano de Mobilidade de São Paulo e foi chefe de gabinete da SPTrans.
É um profundo conhecedor do tema e uma autoridade indiscutível no assunto. Na época, valores chegaram a ser discutidos, e a Prefeitura tinha plenas condições de arcar com o custo.
Prova disso é que quase a mesma quantia foi posteriormente gasta em um diagnóstico de trânsito realizado pela Universidade de Itajubá e pelo CEFET, além do edital do serviço de concessão do transporte público.
O professor Ciro Biderman poderia ter realizado ambos os trabalhos. O único pedido feito por ele aos gestores foi tempo: tempo para estudar a realidade local, vivenciar Poços de Caldas e, assim, desenvolver um plano consistente, de longo prazo e realmente eficaz. Mas havia pressa.
A eleição estava próxima, e era preciso “mostrar serviço”. Mais uma vez, o futuro foi negligenciado. Perdeu-se a oportunidade de construir, da forma correta, um plano duradouro para a mobilidade urbana da cidade.
Optou-se, então, apenas pelo diagnóstico, apresentado na Câmara Municipal em um documento de mais de 600 páginas - e nada além disso. Em conversa com professores da Universidade de Itajubá, ouvi que o contrato previa não apenas o diagnóstico, mas também a elaboração do plano.
No entanto, a Prefeitura não deu continuidade ao trabalho, desperdiçando conhecimento técnico que já havia sido contratado e pago.
Desde então, o que se vê são ensaios, debates e discursos sobre mobilidade urbana, mas nada de efetivo. Tudo muito alinhado à tradicional cultura poços-caldense do “achismo”.
A Secretaria responsável tornou-se a Secretaria Municipal de Segurança Pública e Mobilidade Urbana, reunindo sob o mesmo guarda-chuva a Guarda Municipal, o Departamento de Trânsito e Transporte e a Defesa Civil.
Por melhor que seja o secretário da pasta, é humanamente impossível dar a devida atenção a tantas atribuições complexas e estratégicas ao mesmo tempo.
São áreas fundamentais para o desenvolvimento da cidade e que exigem dedicação específica, planejamento e estrutura própria para que funcionem de maneira eficiente e alcancem os resultados esperados.
Enquanto isso, muitas cidades avançam no debate sobre Tarifa Zero. Em contrapartida, Poços de Caldas possui uma das passagens de ônibus mais caras da região.
Municípios conseguem captar recursos junto ao BID - Banco Inter-americano de Desenvolvimento, a fundo perdido, para investimentos em infraes-trutura de mobilidade urbana. O requisito básico é simples: bons projetos.
Aqui, enfrentamos enormes dificuldades até mesmo para liberar um empréstimo destinado a uma ligação viária entre a Zona Oeste e a Zona Sul - uma estrada há muito sonhada e anunciada, mas que, na prática, não resolverá o problema, apenas amenizará.
Hoje, o conceito moderno de mobilidade urbana não passa pela construção de mais vias, mas pelo fortalecimento do transporte público, pela redução do número de carros nas ruas e pela otimiza-ção dos espaços já existentes.
Somos privilegiados por viver em uma cidade com ruas largas, calçadas generosas e boa infraestrutura, pensadas por prefeitos com uma visão muito à frente de seu tempo.
Diante de tudo isso, a pergunta permanece - e precisa ser respondida com seriedade, planejamento e coragem: Vamos, afinal, falar de Mobilidade Urbana?
* Felipe Mesquita de Paula é jornalista
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