Nunca foi só uma mancha de batom

Set 12, 2025 - 10:37
Nunca foi só uma mancha de batom

Esculpida em granito, impõe-se na Praça dos Três Poderes Têmis, inspiradíssima e bela, a deusa grega da justiça, obra do grande Alfredo Ceschiatti. 

Em oito de janeiro de 2023, a euforia desatinada de uma cabelereira pichou com um batom vermelho - “perdeu, Mané”.

A inscrição foi a síntese do sentimento de uma turba que, com planejamento, coordenação e concurso de forças de segurança, imaginava uma vitória sobre a democracia e a consequente intervenção militar tão apregoada quanto incentivada, desde a posse de uma figura menor, despreparada, violenta, grosseira e vil na presidência, após anos de pregação antidemocrática, defesa de tortura, arbítrio e eliminação de adversários.

Aquela turba ensandecida e histérica, grande parte reles massa de manobra, esperava a chegada dos tanques e tropas para deposição do governo legitimamente eleito num processo democrático. 

Não foi só a marca do batom em Têmis, mas uma ação desesperada de destruição dos símbolos da República, para deposição do Presidente, fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal. 

A ilusão se desfez, o golpe fascista deu errado. Dali para a cadeia. O fascismo, diga-se, não é composto apenas de brucutus estúpidos e incapazes, antes fosse. 

Ele carrega o germe da dissimilação, da covardia, dos ataques pelas costas, das supostas neutralidades e equivalências e alguns punhos de renda. 

O brucutu se entrega na roupagem, na mistura de bandeiras de Israel e Estados Unidos com o verde amarelo, na crença acrítica e incondicional ao que dizem seus mentores políticos, religiosos e militares. 

O perigo está nos punhos de renda, aqueles que não tomaram chuva nem enfrentaram o frio na delirante temporada na frente dos quartéis; os punhos de renda não abandonaram seus empregos nem suas famílias, os punhos de renda fascistas não marcharam na Praça dos Três Poderes no dia 8 de janeiro.

Eles financiaram, levaram comida, pagaram transporte, panfletos, camisetas, chapéus bonés, faixas e bandeiras. 

Os punhos de renda fascistas se esconderam quando o golpe deu errado, fugiram de Brasília, abandonaram a massa de manobra, viajaram para o estrangeiro, ficaram em silêncio, enquanto a cabelereira, a idosa, o pai de família, a professora desavisada, os caras que tentaram explodir o aeroporto integravam a cabisbaixa caravana para as prisões e condenações.

Passado algum tempo, os punhos de renda fazem o discurso dos processos “viciados”, das injustiças contra os pequenos – “imaginem alguém pegar 14 anos de cadeia só porque pichou a estátua”, repetem.

É mentira, ninguém foi condenado por pichação ou por estar passeando naquele domingo em Brasília. Foram condenados porque participaram, conscientemente já que pediam intervenção militar e fechamento do STF, de uma tentativa de golpe de Estado. 

Foram presos porque se recusaram a fazer acordos de não persecução penal que daria, por exemplo, a mulher do batom a cumprir uma pena reduzidíssima em casa, com seus filhos e marido.

A condenação do líder e seus comparsas, neste momento, só faz justiça, não serão apenas os “manés” condenados, todos os que Têmis puder alcançar serão presos exemplarmente para que o Brasil nunca mais viva a tragédia de uma ditadura real, a que proibia manifestações, a que impedia a circulação de jornais, a que fechava rádios e tvs, a que prendia, torturava, matava.

O granito de onde surgiu Têmis foi manchada de vermelho, vermelho de batom. A história do Brasil tem outras pedras manchadas - as “olhos de Pombo” no cais do Valongo; as dos muros de pedra encaixada de Minas Gerais e outros estados, as britas dos pátios onde se arrastavam presos políticos, as pedras de cantaria da cadeia de Recife, as pedras de pelourinho. 

Todas manchadas de vermelho, não de batom, mas sangue derramado pela insurreição dos aflitos e pelos corpos seviciados dos mártires da liberdade.

A condenação dos líderes do atentado fascista contra a democracia marca um novo tempo neste país fragilizado pelo golpismo permanente e pelos traidores da pátria. 

Nenhuma mentira bem contada, palavra adocicada ou gesto de cortesia disfarça a desonestidade intelectual dos punhos de renda fascistas. Sem anistia. Fascismo não passará!

* Paulo Tadeu é ex-prefeito, ex-vereador e presidente do Diretório Municipal do PT 

 

Qual é a sua reação?

like

dislike

love

funny

angry

sad

wow