Impunidade para bandido e anistia: a gestação do golpe parlamentar
A sequência de enfrentamentos que a Câmara Federal encadeia contra a sociedade brasileira deve ser tomada pelo que ela é de verdade.
Está muito claro que esta é, certamente, a mais despreparada, a mais indigente, a mais cínica de todas as composições que a câmara baixa no sentido literal, e simbólico neste momento, já experimentou em toda sua existência.
Também integrada pelas figuras mais sinistras e agressivas que jamais pisaram aqueles tapetes sofisticados e frequentaram aquela arquitetura revolucionária de Oscar Niemeyer.
As performances de deputados e deputadas de extrema direita são, frequentemente, ridículas, circenses, mas integram um quadro planejado de desmoralização do poder legislativo.
Quanto mais a sociedade se opõe a determinadas iniciativas, mais a maioria chula e estúpida nelas aposta.
Esperam, como resultado, que o eleitorado se canse, desanime, revolte-se, encha-se de santa ira e indignação, desista do voto, da democracia.
Este é o projeto - desestimular os eleitores desacorçoados, furiosos, descrentes, razoavelmente críticos, para construir ampla maioria com os rebanhos de toda natureza - venais, funda-mentalistas, tangidos pelo crime organizado, entre outros segmentos alheios à realidade.
A tentativa de aprovar uma lei dando aos deputados e senadores uma proteção para cometerem crimes, safarem-se de crimes cometidos, é tão perversa quanto calculada.
Se a emenda constitucional que permite aos parlamentares brasileiros cometerem crimes sem castigo, salvo se o próprio congresso permitir (pausa para rir) for aprovada, o que hoje é suspeita tornar-se-á verdade absoluta – o congresso brasileiro será o covil de todo tipo de velhaco, do ladrão ao assassino, do estu-prador ao punguista, do pedófilo ao agres-sor de mulheres, do bate-pau ao chefe de quadrilha.
O crime organizado que agora frequenta as rodas mais “perfumadas” da especulação financeira não mais precisará se esconder porque terá como valhacouto as cúpulas invertidas e as torres monumentais.
Seus integrantes terão nome, endereço e não mais biografias, mas folhas corridas esfregadas na cara perplexa do povo brasileiro, um olhando para o outro repetindo o Tavares, personagem de Chico Anísio, sempre com uísque na mão, confessando: “sou, mas quem não é?”.
A outra afronta à democracia e ao futuro do Brasil é a tal da anistia; não anistia para “aqueles malucos”, na expressão deplorável e covarde do inominável que presidiu o Brasil, mas para o próprio e seus comparsas, quadrilheiros que tentaram um golpe de estado para colocar o Brasil nas mãos da pior escória que já se juntou nestas paragens tropicais.
Ao mesmo tempo em que combatemos esta disfunção putrefata do legislativo brasileiro - anistia e impunidade para facínoras - é preciso mobilizar as parcelas críticas da sociedade brasileira para evitar que a farsa de hoje se torne tragédia amanhã.
* Paulo Tadeu é ex-prefeito, ex-vereador e presidente do Diretório Municipal do PT
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