Imigração, coragem, trabalho e fé
Era manhã de 28 de maio de 1896, Fortunato Vinci e a família estavam a admirar o nascer do sol no porto aonde esperavam o embarque no vapor SUD AMERICA, esperançosos por uma nova vida no Brasil, as lembranças da amada comuna de Marradi, província de Florença na região da Toscana vinham em sua mente, a vida, os pais, parentes e amigos e tudo que haviam vivido naquele local se tornariam lembranças pois sabiam que um regresso seria algo difícil de acontecer.
Fortunato se lembrava com carinho da amada Marradi dos vales, montanhas e florestas de castanheiros, com inversos rigorosos, verões amenos e primaveras e outonos com temperaturas agradáveis, ele ainda podia sentir o perfume das flores coloridas, lembrava-se do centro da cidade em arquitetura senhorial influenciada por Florença, ele sorria com as lembranças da vida cultural ativa refletida no Teatro degli Aanimosi, unia o povo e a elite com óperas, concertos e peças dramáticas, com olhos marejados relembrava o teatro de marionetes uma atração popular nas ruas serviam como a voz do povo com suas sátiras políticas, as marionetes e os fantoches tinham uma influência forte, por outro lado seu mais famoso poeta Dino Campana era apenas criança nesta época.
As lagrimas vieram com a lembrança das Sagras festas populares de colheita eram um grande evento social que reuniam pessoas por semanas com contações de histórias, lendas locais passadas por gerações.
Os castanheiros de Marradi habitavam o coração de Vinci os famosos " Marrone di Marradi" no final do século XIX a economia girava em torno deles, seu principal produto era a farinha de castanha, naquele tempo também havia a construção da linha ferroviária Faentina que favoreceu o comércio de seda e produtos agrícolas e traziam esperança.
Fortunato sentiu um aperto no peito ao recordar que fazia parte de uma população em sua maioria composta de camponeses, de agricultura de subsistência, com poucos recursos, a população pobre vivia em casa rústicas sem saneamento básico, alimentação limitada com base em pães, polentas e vegetais , carne era muito raro, as crianças trabalhavam cedo, acesso à escola era restrito, roupas eram remendadas até não ser mais utilizável, alto índice de desemprego assim as pessoas se apegavam a fé, sendo a religiosidade muito forte.
Devido a unificação italiana as dificuldades econômicas e as lutas sociais as famílias de Marradi iniciaram sua imigração para o Brasil e Argentina, em busca de melhores condições e vida.
Fortunato Vinci sentiu a alma se encher de um misto de apreensão, esperança e coragem ao ver a embarcação se aproximar do porto e então os 32 anos o simples oleiro e sua esposa Maria com 31 anos dona de casa, junto aos filhos Ersilia, Mario e Ida embarcaram rumo a seu novo lar o Brasil e desembarcaram quase dois meses depois no porto de Santos em 23 de julho de 1896, seguindo para nossa amada Poços de Caldas, que os acolheu com amor e carinho, juntos enfrentaram os desafios de viver em uma nova terra, trabalharam e realizaram sonho de uma vida melhor.
Fortunato, possuidor escolaridade razoável trabalhou como administrador de fazendas, no ciclo áureo do café na região, é lembrado como administrador rigoroso citado no livro de Mario Seguso, Os Admiráveis Italianos de Poços de Caldas 1884 - 1915.
Sua família cresceu e floresceu em Poços de Caldas, tiveram 17 filhos, 14 nascidos no Brasil, minha linhagem descende do seu segundo filho Mario Giuseppe Vinci nascido em Marradi em 14/08/1889.
Fortunato homem rígido e de fortes princípios acendeu aos céus aos 90 anos em 12/04/1953 e sua esposa a serena Maria aos 89 anos em 24/06/1953 deixando um legado de coragem, trabalho, fé e amor.
Esta história real é relatada por um tataraneto em homenagem a coragem, a obstinação de um povo trabalhador e cheio de fé e esperança que deixaram suas cidades na Itália em busca de boas novas e também aos brasileiros e cidadãos de outros países que os acolheram com amor.
106 anos, levando em conta as dadas de nascimento Fortunato 1862 e a minha 1968, separam as histórias de vida de Tataravô e Tataraneto, sinto muito orgulho em conta-las.
Agradecimentos
Museu Geografico de Poços de Caldas na pessoa da srª Ester, a administradora que gentilmente me ajudou na pesquisa; Mario Seguso, autor do livro - Os Admiráveis Italianos de Poços de Caldas 1884 - 1915; Claudio Mercatali da Biblioteca de Marradi - Itália.
* Sandro Avelino é desenhista industrial e graduando em Música. E-mail: sandroavelino2018@gmail.com
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