Editorial 22/04/26

Abr 22, 2026 - 17:43
Editorial 22/04/26

O memorial para os charretistas e a conveniência política

A Câmara Municipal aprovou a Moção 19/2026, que propõe a criação de um memorial para os charretistas.

O documento, assinado por oito parlamentares, descreve a atividade como patrimônio cultural e recorda a trajetória iniciada por volta de 1900.

O texto justifica a iniciativa como uma medida para evitar que a história do serviço - encerrado no dia 13 de março deste ano - seja esquecida.

No entanto, a proposição surge em um contexto que sugere motivações além da preservação histórica, assemelhando-se a uma tentativa de reparo político após incidentes locais.

A moção enumera os locais ocupados pelos trabalhadores ao longo das décadas, como a Rua Marechal Deodoro, a Praça do Palace Hotel e a Praça Getúlio Vargas.

É nesta última, inclusive, que ocorreu a destruição parcial do fontanário utilizado pelos animais, fato que gerou críticas contundentes na cidade.

A ausência de uma proposta de memorial durante as longas tratativas para o fim do serviço de tração animal reforça a percepção de que a medida é uma resposta reativa à péssima repercussão dos danos no bebedouro, envolvendo ativistas e o prefeito Paulo Ney (PSD).

Se o patrimônio físico não tivesse sofrido avarias que desgastaram a imagem da gestão pública, é provável que a homenagem aos charretistas não estivesse na pauta do Legislativo.

O encerramento do serviço de charretes foi resultado de anos de pressão de ativistas da causa animal e de setores da população que consideravam a prática anacrônica.

Embora a moção foque na recepção de visitantes e na construção da identidade turística, ela ignora as tensões que envolveram a proibição da atividade.

A proposta de um memorial tenta, agora, encerrar o ciclo com uma narrativa de gratidão, mas o faz de forma tardia.

A criação de monumentos para atividades extintas é prática comum em cidades históricas; no entanto, o que parece se pretender aqui é a pacificação de polêmicas imediatas.

O memorial soa menos como um projeto de educação histórica e mais como um instrumento de desagravo político pelo modo como a transição e a zeladoria do patrimônio foram conduzidas na Praça Getúlio Vargas.

Resta saber se a homenagem servirá à preservação da memória ou se será apenas uma estrutura de concreto para abafar o debate sobre a gestão do espaço público e o bem-estar animal.

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