Carta à minha aluna
Querida aluna,
Ser adolescente não é fácil. Ter que pertencer a um grupo, descobrir sua identidade e estudar enquanto sente o peso de ter que decidir o próprio futuro… Acredite, eu sei.
Também sei que a realidade da comunidade em que você vive é dura e que, assim como seus colegas, mesmo sendo tão jovem, você já vivenciou coisas que muitos adultos não têm maturidade emocional para superar.
Isso atravessa vocês de tantas formas que talvez só percebam esse atravessamento anos mais tarde, quando tiverem bagagem suficiente para refletir sobre os próprios padrões de comportamento e de onde eles vêm.
Eu também não fui uma adolescente dentro do padrão esperado: não tinha o corpo mais bonito, o cabelo que elogiavam, nem era a "miss simpatia" que conseguia conversar abertamente com todos.
Aprendi desde cedo a ter vergonha do meu corpo, do meu cabelo, e a medir meu valor pelo olhar de aprovação de terceiros.
Pensava, a todo momento, o quanto eu era pouco, o quanto era menos… E, quando a gente passa por isso, parece que não vai passar, não é?
Parece que a vida inteira vamos nos sentir assim… Mas não vai ser assim pra sempre. Você vai enfrentar problemas maiores e vai aprender a lidar com cada um deles.
Só que, para isso, você precisará se conhecer e - sinceramente - vale a pena dedicar tempo a isso. Descubra o que você gosta de ouvir, de assistir, de apreciar.
Pesquise, leia, tenha repertório. A vida é muito mais gostosa quando a gente descobre aquilo que nos dá frio na barriga, em vez de se preocupar com o tamanho da circunferência dela.
Admito que, muitas vezes, isso ainda é um desafio pra mim… mas suas palavras me ajudaram. Quando você me disse que, ao me ter como professora, passou a se olhar com mais carinho; que viu nos meus cabelos enrolados uma chance para os seus; e que suas roupas largas - antes usadas para esconder partes do corpo de que não gostava, e que eram usadas como justificativa para questionarem sua sexualidade - agora são vistas como um estilo parecido com o meu…
Você não imagina o quanto me fez feliz. O quanto também me fez olhar para mim mesma com mais carinho. Então, escrevo esta carta para dizer: muito obrigada!
A vida docente não é fácil. Não somos bem remunerados, enfrentamos inúmeros desafios educacionais e sociais, e ainda há o desprestígio que políticos inúteis fizeram questão de espalhar por aí, dizendo que somos doutrinadores…
Queria eu ter a chance de doutrinar todos os meus alunos. Doutrinar o suficiente para que todos vocês entendam o quanto são grandes! O quanto têm potencial! O quanto são inteligentes e têm o futuro inteiro pela frente.
Doutrinar para que queiram ler, estudar, ir para a faculdade e superar as adversidades que, desde tão cedo, a vida fez questão de colocar em seus caminhos.
Mas, sabe… longe de querer relativizar todos os problemas da minha profissão - eu queria, sim, ganhar mais, ter melhores condições de trabalho, não ficar sobrecarregada pela falta de professores e de material…
Só que momentos como esse, a validação de vocês, meus alunos… ver vocês aprendendo, questionando e se amando… isso é inestimável.
Espero que entenda que você contribuiu para que eu continuasse vendo sentido no meu trabalho. Agradeço imensamente pela troca! Ass.: Sua professora.
* Mariana Teodoro Nascimento é professora
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