Quem é Sean Baker, o último ganhador do Oscar?

Anora, longa de Sean Baker, venceu em cinco de seis categorias indicadas

29 Jan, 2026 - 11:25
29 Jan, 2026 - 11:31
Quem é Sean Baker, o último ganhador do Oscar?
Cena de “Anora”, grande vencedor do Oscar em 2025

No dia 22 de janeiro, foram anunciados os indicados ao Oscar 2026. A edição passada foi marcada pela vitória de Ainda Estou Aqui em Melhor Filme Internacional e pela indicação de Fernanda Torres para Melhor Atriz. 

Mas o destaque da premiação certamente foi Anora, longa de Sean Baker, vencendo em cinco de seis categorias indicadas, sendo elas: Melhor Atriz (Mikey Madison), Melhor Direção, Melhor Edição e Montagem, Melhor Roteiro Original e Melhor Filme, fazendo de Sean Baker o primeiro a ganhar quatro esta-tuetas em uma única noite com um mesmo filme na história da premiação.  

Sean Baker é um diretor de cinema independente estadunidense, originário de Nova York, que tem como marca nos seus filme o que Isabella Faria, crítica de cinema, destaca como “cinema social”, com a busca do cineasta em representar personagens socialmente vulneráveis, abordando-os não-tradicionalmente como protagonistas e trazendo às telas discussões críticas  sobre a vida dessas personas marginalizadas, que muito dificilmente são vistas em destaque no cinema comercial hollywoodiano. 

Em nosso cinema nacional, tal abordagem cinematográfica é extremamente comum, dada a realidade sócio-cultural brasileira, mas nos EUA, um país de indústria audiovisual, são poucos os cineastas que procuram contar histórias com personagens que fogem da fórmula comercial norte-americana, por isso Sean Baker se destaca ao propor um cinema independente visando retratar aqueles que estão à margem da sociedade estadunidense, como asiáticos sem documentação em Nova York; vendedores negros de roupas falsi-ficadas na Broadway; atores e atrizes pornô; personagens trans; mães solteiras que moram em hotéis baratos; e Anora, uma dançarina erótica. 

A escrita muitas vezes caótica e imprevisível, com cenas e situações pouco convencionais, são características do diretor, sempre mesclando o drama e a comédia. 

Sean, possuí um estilo de câmera que muitas vezes lembra  o documental (principalmente no início de carreira), com influências diretas do Dogma 95. 

Seu estilo cinematográfico foi desenvolvido ao longo do tempo, mas destaco a influência da diretora e produtora Shih-Ching Tsou em sua filmografia, tendo eles trabalhado juntos, desde de Take Out (2004) à Anora (2024). 

Antes do Oscar, Anora ganhou o festival de Cannes, e com a repercussão, assinou contrato de distribuição com a NEON, que foi responsável por filmes como Parasita, Anatomia de Uma Queda, Pior Pessoa do Mundo,  e recentemente por Agente Secreto.  

A NEON teve influência direta na vitória de Anora, com um investimento de 18 milhões de dólares em distribuição e propaganda, três vezes mais que o orçamento do filme (6 milhões de dólares). 

A título de comparação, Duna Parte 2, que concorreu com Anora no Oscar, teve um orçamento blockbuster de 190 milhões de dólares. 

A premiação do Oscar não é sobre qualidade, é sobre publicidade. Os votantes podem escolher um filme sem necessariamente o terem visto, ou seja, a propaganda de um filme é fundamental durante a temporada de premiações, já que os votantes precisam somente serem convencidos de que tal diretor é bom, ou que tal atuação é fenomenal, e que o filme em questão é um destaque cinematográfico do ano, por x questões, e que de fato foi o Melhor Filme do Ano. 

Por isso constantemente vemos um filme não tão bom levando as categorias principais, enquanto filmes melhores passam em branco nas premiações. 

Para alguns, Anora, foi esse filme não tão bom. O que chocou certamente foi um filme com a temática que tem ter vencido. Então vamos à ele. 

A começar pela sinopse:  “Uma dançarina erótica se casa com um cliente, filho de oligarca russo. Ao saber do casamento, a família do russo voa a Nova York para anulá-lo. O noivo então foge pela cidade para não enfrentar as responsabilidades com os parentes.”. 

O filme é uma dramédia, por vezes mais drama que comédia, por vezes mais comédia que drama. O filme logicamente recebeu classificação 18+, não apenas pela temática, mas por ter um primeiro ato com muitas cenas explícitas. 

Já sendo isso o suficiente para afastar grande parte do público e restringir entradas no cinema. O longa explora essa relação caótica de Anora com a família russa do noivo, e da relação de ascensão social e queda da personagem. 

O que no início parece um sonho glamourizado de uma nova vida de consumo, é destruído pela fria realidade que a família russa transporta à ela. 

Muitos ressaltariam a relação líquida aqui presente, mas o desejo de se fazer real a construção de uma fantasia, para mim, é o grande ponto do filme.  Anora vive uma vida fantasiosa que ela cria para  si e a seus clientes; e a vida com o oligarca russo é uma extensão dessa fantasia. 

A fuga da realidade que a relação traz à ela soa como benefício, contudo, toda a realidade de absoluto desejo e fuga (literal e não literal) das personagens, culmina em um desfecho frio na trama, um choque mais que real à vida fantasiosa que os personagens preferem viver. 

O sonho, o desejo e a constante fuga, são temas presentes na filmografia de Sean Baker. Para além dele, são temas que as academias e o público gostam de ver em tela, pois o que é o cinema senão uma fuga onírica? 

Outra característica são os personagens ambíguos, dicotômicos, que nos atraem justamente por suas representações que muitas vezes fogem da nossa realidade, ou que nos apresentam um ponto de vista diferente de tal. 

Anora se sobressaiu na premiação, justamente pelo ponto de vista radical da narrativa. Houve outros filmes que se propuseram a trazer novos pontos de vista narrativos com personagens minimamente disruptivos, como o caso de Emília Perez. 

A diferença entre os dois está na sensibilidade do diretor para tratar de questões sociais e na pesquisa de roteiro. Um bom tema, uma personagem fora do padrão e uma suposta representação social necessária, não faz um filme ser bom, apenas gera interesse. 

Quando falho, temos Emília Perez, um longa que só teve destaque por uma suposta “temática importante”, mas tão vazia que se tornou esquecível. 

Quando bem feito, temos Anora, que entende quem são suas personagens em tela, e que eu tenho certeza que daqui 10 anos ainda ouviremos falar. 

Dentre os indicados à Melhor Filme desta nova edição do Oscar, certamente não há um filme tão ousado quanto foi Anora. 

Isso não significa que não haja bons filmes, mas sim que a edição deste ano propõe uma tendência diferente, mais conservadora que 2025, buscando novos destaques na indústria.  

Para aqueles que queiram conhecer mais, deixo minhas observações sobre o restante da filmografia de Sean Baker e onde assistir.

Anora (2025)
Disponível com assinatura Amazon Prime
Nota: 9,5/10
Uma dançarina erótica se casa com um cliente, filho de oligarca russo. Ao saber do casamento, a família do russo voa a Nova York para anulá-lo. O noivo então foge pela cidade para não enfrentar as responsabilidades com os parentes.

Red Rocket (2021)
Disponível para Aluguel na Amazon Prime
Nota: 7/10
Um ator pornô em queda, volta à sua cidade do interior para recomeçar sua vida. Lá ele se envolve com uma vendedora de donuts, de 17 anos, a qual ele vê como futuro da indústria pornográfica. De fato o mais estranho de todos, e um dos mais fetichistas, logicamente não recomendo a qualquer um, veja por sua conta em risco.

Projeto Flórida (2017)
Disponível na assinatura da Diamond Films, via Amazon Prime
Nota: 8/10
O primeiro do diretor que assisti, e o que tem o ponto de vista narrativo mais único até então! Conta a história de uma garotinha que vive com a mãe em um hotel de beira de estrada barato. A mãe, solteira, se prostitui no quarto alugado para sustentar a ela e sua filha.

Tangerine (2015)
Disponível no Filmicca
Nota: 8/10
Muito lembrado por ter sido filmado em um Iphone 5s. Uma prostituta trans, vai atrás de seu namorado e cafetão com sua melhor amiga, após descobrir que ele a traiu enquanto ela estava na prisão. Certamente o mais caótico em narrativa, o filme tem poucas pausas e mantém um ritmo frenético e barulhento do início ao fim.

Starlet (2012)
Indisponível em Streamings, assisti via VK Video
Nota: 6/10
O mais fraco da filmografia. Narra a história de uma atriz pornô que compra uma garrafa térmica de uma senhora em uma venda de garagem e descobre 10 mil dólares guardados. Com isso ela se aproxima da senhora, que não sabe sobre o dinheiro, e planeja levá-la a Paris para realizar seu sonho.

Príncipe da Broadway (2008)
Indisponível em Streamings, assisti via Drive.
Nota: 9,5/10
Um dos meus favoritos do diretor. Conta a história de um vendedor de roupas falsificadas que é obrigado a cuidar de um filho, que o mesmo desconhecia, por algumas semanas que se tornam alguns meses.

Take Out (2004)
Disponível no Youtube com legendas generativas traduzidas.
Nota: 8,5/10.
Filme co-dirigido com a cineasta Shih-Ching Tsou, retrata o dia chuvoso de um entregador asiático sem documentação, tentando recolher gorjetas para pagar sua dívida com agiotas. Gravado com apenas 3 mil dólares, uma aula de ritmo.

* Pedro H.R. Tavares é estudante de Cinema no IFG Campus Cidade de Goiás

 

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