O renascimento do Carnaval poços-caldense
O carnaval carioca, talvez, o maior símbolo de resistência afro-brasileira, tem a sua origem no período colonial, sendo uma mistura de tradições africanas, indígenas e europeias.
Após a abolição da escravatura e com a popularização do samba, que nasceu nos quintais e morros, este se tornou o ritmo principal desta festa.
Envolve toda a comunidade na sua realização, dividindo as tarefas ao longo do ano, desde a escolha do samba-enredo, à confecção das fantasias, adereços e carros alegóricos.
Desde os ensaios da bateria, dos mestre-sala e porta bandeira, até a rainha da bateria. Tudo é planejado com rigor, culminando no gingado das baianas e na desenvoltura da comissão de frente.
Tudo muito bem organizado. Ao escolher o tema do samba-enredo, uma aula é dada a comunidade: é preciso conhecer o homenageado, sua história de vida, (quando a homenagem é feita a uma pessoa importante), e o seu legado.
Quando se homenageia um lugar ou um fato histórico, é preciso entender a sua importância política, trazendo para a comunidade um conhecimento que muitas vezes não é aprendido na escola. Uma verdadeira aula de história.
Ao definir a letra, o ritmo, e a melodia do samba-enredo, mais uma aula de arte. A partir da escolha do samba-enredo é que se definirá todo o resto dos detalhes que configurarão o desfile das escolas de samba. Ao longo do ano, a comunidade se divide e cada fantasia é feita, muitas vezes, à mão.
A confecção dos carros alegóricos, alguns com metros de altura e comprimento, envolve uma coordenação precisa das medidas, onde geometria, arte e matemática estão presentes.
Os ensaios são periódicos e envolvem também a realização de festas após o ensaio, com a presença de barracas com a sua culinária típica, e ambulantes, onde parte do dinheiro arrecadado é usado pela comunidade para cobrir os gastos com a confecção dos adereços.
Crianças, jovens, adultos e idosos, todos estão envolvidos. Estima-se que nas escolas do grupo especial participem entre 2500 e 3200 pessoas, apenas no desfile.
Entre os que estão nos preparativos para o desfile e os que estão nos bastidores, esse número é ainda maior, o que demonstra um grande envolvimento da comunidade com a realização desta festividade.
Além disso, o carnaval carioca movimenta uma economia através do turismo, onde milhões de pessoas vão para o Rio de Janeiro para assistir aos desfiles ou participar dos blocos de rua. Isso gera receita em setores como hotelaria, transporte, gastronomia, vestuário e entretenimento.
Também há patrocínio de empresas, apoio financeiro do governo e favorece pequenos comerciantes e ambulantes. Envolve também a presença de artistas e figuras públicas durante o desfile, ao qual contribuem financeiramente com a aquisição das fantasias.
Mas o que Poços de Caldas tem a ver com esse modelo de sucesso? Infelizmente, a realidade local seguiu o caminho inverso.
O carnaval poços-caldense, negligenciado pela falta de verba pública desde gestões passadas, viu suas escolas definharem. Essa ausência, contudo, não silencia apenas o tambor; ela interrompe um ciclo econômico e social.
Afeta a comunidade toda, desde a venda de tecidos e materiais para confecção de adereços, aos vendedores ambulantes. Afeta também a geração de empregos, e a oportunidade que as pessoas tem de, ao trabalharem na confecção dos carros alegóricos e adereços, aprenderem um novo ofício.
Mais do que isso, o fechamento destas escolas revela também a perda da identidade local, morrendo com elas a memória do bairro e a herança cultural deixada pelos seus fundadores, enfraquecendo o vínculo social e deixando aquela comunidade mais vulnerável.
Em Poços de Caldas, essa herança é indissociável da presença negra, que encontrou nas escolas de samba um espaço de resistência e visibilidade em uma cidade historicamente marcada pelo turismo de elite.
Para a juventude negra das periferias de Poços, o barracão não é apenas um local de trabalho, mas um centro de formação cidadã e afirmação de sua estética e história, combatendo também o silenciamento cultural.
Um local onde se aprende com o corpo, com a escuta, com o toque. Onde vivencia-se o que se aprende, passado de geração em geração.
Ao ser questionado sobre o porquê de serem retiradas as verbas para o desfile de carnaval, a resposta do ex-prefeito era de que esta verba seria aplicada em outros setores, entre eles a saúde. Mal sabia ele que o investimento público em carnaval não é gasto.
É uma receita que sempre volta para a cidade através do turismo, da hotelaria, do comércio e da gastronomia.
Neste ano de 2026, com o retorno das escolas, presenciamos mais do que um evento turístico; testemunhamos a retomada do protagonismo negro ocupando o coração de Poços de Caldas.
Quando o samba atravessa a avenida, a cultura afro-poços-caldense reivindica seu lugar de direito na narrativa oficial do município. Um exemplo vívido desse resgate é a Escola de Samba Saci-Pô, que este ano leva para a avenida a história de uma personalidade marcante da cidade, Maria José de Souza, a Tita.
Ao homenagear Tita, a escola não apenas canta um enredo; ela cumpre o papel de educar a cidade sobre seu próprio legado negro, transformando o desfile em uma ferramenta viva de memória e justiça histórica.
O carnaval não é só uma prática artística, é a própria comunidade. É um manifesto político, reafirmando o protagonismo do povo negro.
É também uma forma de reivindicar direitos, celebrar conquistas e denunciar injustiças. O desfile não é só uma sequência de carros alegóricos a passar, é o povo negro dizendo:
- Nós estamos aqui, viemos para brilhar!
* Aline Carvalho é antropóloga e professora da rede pública
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