O fim das charretes em Poços de Caldas: uma reflexão sobre o preço do progresso sem diálogo
Hoje, aproveito este espaço para abordar um assunto polêmico, de grande repercussão, mas que, paradoxalmente, foi pouco debatido em sua essência.
Trata-se do fim do transporte com tração animal para fins turísticos em Poços de Caldas.
Não há como voltar atrás nessa resolução, e a questão central aqui não é ser contra ou a favor do fim das charretes, mas sim analisar como todo esse processo foi conduzido.
Várias justificativas foram apresentadas, porém, visivelmente, pouco aprofundadas.
A questão do trânsito, por exemplo, é um argumento válido, mas caberia à Prefeitura otimizar essa dinâmica - uma discussão mais ampla que podemos deixar para outro momento.
A principal justificativa, no entanto, foi o combate aos maus-tratos aos animais.
Contudo, é importante lembrar que, há muitos anos, o poder público municipal já possuía o controle da distância percorrida por cada cavalo, monitorada por meio de chips.
Sendo assim, a própria Prefeitura tinha o dever e a capacidade de fiscalizar e coibir qualquer excesso cometido.
Ainda assim, chegou-se à conclusão de que a continuidade das charretes era inviável. A preocupação com a exploração animal é, sem dúvida, louvável e gerou grande repercussão em níveis municipal, regional e nacional.
Impulsionado por esse clamor, o projeto para o fim das charretes foi levado adiante.
Após o envio de várias propostas à Câmara Municipal - algumas delas inviáveis e até esdrúxulas -, aprovou-se uma versão final que determinava a extinção do serviço, mediante o pagamento de uma indenização aos charreteiros.
E parou por aí. O desfecho foi amplamente comemorado. O próprio chefe do Executivo municipal chegou a destruir, a marretadas, os cochos utilizados para a hidratação dos animais, localizados em uma praça tombada pelo patrimônio histórico de Minas Gerais.
Diante do "feito" alcançado, tais atitudes pareceram não ter importância para muitos.
Como jornalista, faço aqui o meu mea culpa por não ter insistido mais nessa discussão e por não ter proposto alternativas enquanto havia tempo.
E é justamente por isso que trago a público a história de uma pessoa que, enquanto as decisões eram tomadas, ficou à mercê dos acontecimentos, sem compreender a dimensão do que estava por vir.
Falo do Sr. Paulo Ferreira da Silva, charreteiro há 40 anos. Um homem simples, sem muita instrução formal, que dedicou quase toda a sua vida a essa profissão.
No alto de seus 57 anos, ele foi surpreendido pelo fim abrupto do seu ganha-pão: levar turistas para conhecer as belezas da nossa cidade.
A Prefeitura propôs uma indenização de cerca de 20 mil reais, paga de forma parcelada. E, de um dia para o outro, tudo acabou.
O Sr. Paulo, que conhecia apenas esse ofício, viu-se perdido e desamparado. Tentou atuar como guia turístico no mesmo local onde antes ficava sua charrete.
Posteriormente, tentou usar seu carro para trabalhar como motorista de apli-cativo, mas a tecnologia e a modernidade não faziam parte do seu cotidiano, tornando a adaptação extremamente difícil.
Nenhuma alternativa real de transição ou apoio psicológico e profissional lhe foi oferecida.
Recebendo parcelas minguadas da Prefeitura, sem perspectivas e com seu serviço interrompido, ele se viu em um beco sem saída. Não estou aqui para ditar o que é certo ou errado.
O que defendo, de forma intransigente, é o diálogo. Não importa o custo ou o tempo necessário: as transformações em uma cidade devem ser feitas com respeito à vida humana, aos cidadãos, aos animais e a tudo que demande soluções do poder público.
É para isso que confiamos nossos votos aos nossos representantes. Infelizmente, o desfecho dessa história é trágico.
O Sr. Paulo Ferreira da Silva, acuado e sem perspectivas, tomou a decisão extrema de ceifar a própria vida.
Seja por desespero, por um clamor silencioso ou por qualquer outro motivo que não nos cabe julgar, o fato é que estamos aqui para observar e refletir: que tipo de cidade queremos para as pessoas que nela vivem?
Ironicamente, os cavalos do Sr. Paulo, dos quais ele cuidava com tanto afinco e dedicação, provavelmente ficarão à própria sorte, já que ele vivia sozinho.
O projeto, criado com o nobre intuito de proteger os animais, falhou ao não garantir a eles nenhuma vantagem concreta ou a certeza de bons tratos após o fim do serviço.
A discussão foi encerrada e o decreto foi cumprido, acertadamente ou não. O que peço agora é paz e discernimento para todos os envolvidos.
Que possamos encontrar um caminho de reconciliação. No mais, espero que o Sr. Paulo encontre a paz e possa, na eternidade, continuar cuidando de seus animais.
E que a nossa cidade aprenda, de uma vez por todas, a cuidar das pessoas, dos animais, das crianças, dos idosos e de todos que formam a nossa comunidade. Afinal, é para isso que os elegemos.
*Felipe Mesquita de Paula é jornalista
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