Editorial 06/03/26

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Mar 6, 2026 - 10:04
Editorial 06/03/26

O parecer sobre as contas de 2024 e o paradoxo de Paulo Ney

Um parecer da Comissão de Finanças e Orçamento da Câmara Municipal indicou a rejeição das contas de 2024 do ex-prefeito Sérgio Azevedo (PL). A aprovação do relatório ocorreu em reunião ontem, 5.

O relator Flávio Togni de Lima e Silva (MDB), acompanhado pelo voto de Tiago Mafra (PT), fundamentou a decisão em irregularidades como abertura de créditos sem lastro financeiro, divergências no sistema SICOM e falta de empenho prévio em despesas.

O valor de R$ 12,4 milhões em dívidas com a Santa Casa de Salto de Pirapora ilustra bem a situação fiscal herdada.

Uma eventual rejeição das contas de Sérgio coloca o prefeito Paulo Ney (PSD) diante de uma encruzilhada política.

O desequilíbrio financeiro de 2024 atingiu uma relação de 118% entre despesa e receita, conforme declarações do próprio prefeito na Câmara, na abertura dos trabalhos legislativos deste ano.

Uma reprovação das contas, caso confirmada em plenário pelos vereadores, seria conveniente para a atual gestão, pois poderia ser utilizada como argumento para transferir a responsabilidade sobre esse caos financeiro ao antecessor.

De forma pragmática, o prefeito Paulo Ney e sua equipe justificariam as dificuldades financeiras atuais sem a necessidade de explicitar a culpa no ex-prefeito, já que a rejeição das contas passaria a mensagem clara à população de que Sérgio realizou uma gestão temerária, especialmente no último ano de mandato.

Algo semelhante ocorreu no ano passado, quando a administração municipal não se opôs às três CPIs na Câmara (Serviços Funerários, Fundeb e Centro Administrativo), que remetiam mais à gestão de Sérgio do que à de Paulo Ney.

Ao "deixar" que as CPIs fossem aprovadas, a gestão retirou o foco de si; ainda que questões relacionadas aos temas das comissões fossem abordadas, bastava argumentar que os problemas não surgiram na gestão atual.

Contudo, a estratégia de não se opor à aprovação da rejeição das contas traz riscos eleitorais. Paulo Ney baseou sua campanha na continuidade e na identificação direta com o governo de Sérgio Azevedo, e o eleitor associou a imagem de ambos durante o processo.

Uma rejeição formaliza a irregularidade da gestão que o atual prefeito defendeu, na condição de secretário municipal. Parte do eleitorado pode interpretar como uma contradição ou um erro de escolha na hora de votar.

Além disso, a rejeição pode comprometer a coesão da base política, que ainda mantém laços com o ex-prefeito.

O processo segue agora para o Plenário com prazo até o dia 19 de maio. A decisão pode ser a "tempestade perfeita" para que Paulo Ney se desvencilhe do passivo de 2024, ainda que o preço seja a desconstrução da própria aliança que o sustenta.

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