Distopias analógicas e reflexões profundas na sétima temporada de Black Mirror

Jul 21, 2025 - 16:19
Jul 21, 2025 - 16:26
Distopias analógicas e reflexões profundas  na sétima temporada de Black Mirror
Paul Giamatti, destaque absoluto no episódio “Eulogy”

A aclamada série antológica "Black Mirror" ressurge para sua sétima temporada na Netflix, mantendo sua premissa de explorar os perigos e as consequências da tecnologia em um futuro nem tão distante. 

Dos seis episódios que compõem este novo ciclo, seleciono os dois que considero terem se sobressaído em relação aos demais por suas narrativas intrigantes, atuações notáveis e abordagens tecnológicas que, ironicamente, flertam com o analógico: "Eulogy" e "Brinquedo".

Um retorno sombrio ao universo de "Bandersnatch"
"Brinquedo" se revela como uma espécie de sequência do inovador filme interativo "Black Mirror: Bandersnatch" (2018), aquele em que é preciso usar o controle remoto para escolher o destino dos personagens, mergulhando novamente em um universo onde escolhas e consequências se entrelaçam de forma perturbadora. 

O episódio se beneficia de atuações cativantes que conseguem transmitir a crescente paranoia e o desespero dos personagens à medida que a trama se desenrola. 

Não tem como não citar a presença de Will Poulter de volta como Colin Ritman, o programador paranoico que criou um jogo analógico incomum, com uma população de criaturas fofas, que remete a jogos como "Lemings". 

A trilha sonora, um elemento sempre crucial em "Black Mirror", ganha destaque aqui ao intensificar a atmosfera de suspense e incerteza, com composições que transitam entre o onírico e o inquietante, sublinhando os momentos de tensão e revelação. 

Um dos pontos mais interessantes do episódio é o foco na tecnologia analógica. Longe dos dispositivos futuristas e reluzentes, o episódio explora como a manipulação pode ocorrer através de mídias mais antigas, como CDs, televisores de tubo e PCs, adicionando uma camada extra de estranheza e nostalgia à distopia. 

Essa escolha narrativa subverte a expectativa de que os perigos tecnológicos sempre virão do mais avançado, mostrando que o controle e a invasão podem residir também no familiar e no "obsoleto".

A complexidade de uma IA agridoce
"Eulogy" é um episódio que cativa desde os primeiros minutos, apresentando uma visão diferente e complexa de uma Inteligência Artificial. 

Aqui, a IA não é meramente um antagonista ou uma ferramenta; ela se manifesta de maneiras inesperadas, desafiando a percepção humana sobre consciência e propósito. 

A narrativa habilmente constrói a progressão da IA, revelando suas camadas e intenções de forma gradual e impactante. 

O grande destaque de "Eulogy" é, sem dúvida, a performance monumental de Paul Giamatti. Sua interpretação confere uma profundidade notável ao seu personagem, navegando por um espectro de emoções que vão da angústia à resignação, e da confusão à clareza. 

Ele consegue transmitir a complexidade da interação humana com a tecnologia de uma forma visceral. A tecnologia avançada da IA, em contraponto com a tecnologia analógica vivenciada na juventude do protagonista nos anos 80-90, permite dimensionar o avanço sem precedentes que temos experimentado ao longo dos anos. 

Não por acaso, o uso das fotografias, filmes e câmeras analógicas como recursos dramáticos mostram perfeitamente a diferença destes dois mundos. 

São 47 minutos memoráveis de um dos melhores episódios de toda a série. Destaque para a trilha, com músicas dos anos 80-90, na qual a dançante "Fool's Gold", do The Stone Rose, é o ponto alto.

* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade 

 

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