Brian De Palma e a teia de som e imagem construída em Um Tiro na Noite

Clássico suspense psicológico com John Travolta e Nancy Allen explora a paranoia em meio a uma conspiração política

Ago 19, 2025 - 12:32
Brian De Palma e a teia de som e imagem construída em Um Tiro na Noite
Cena do filme "Um Tiro na Noite": atmosfera de suspense e foco na tecnologia são centrais para a narrativa do filme

O filme "Um Tiro na Noite" (Blow Out, 1981), dirigido por Brian De Palma, entrou no catálogo do Prime Video. 

É uma ótima oportunidade de conferir esse suspense psicológico que se consolida como uma das obras-primas do diretor, conhecido por seus trabalhos no gênero policial. 

A trama, que se desenrola em meio a uma conspiração política, mergulha profundamente na paranoia, na percepção da realidade e no uso da tecnologia. 

Não é exagero nenhum falar que seria totalmente plausível considerar que a trama poderia ter ocorrido na vida real, dado o contexto da época do lançamento. 

A genialidade do longa reside na forma como ele dialoga com dois clássicos do cinema: "Blow-Up - Depois Daquele Beijo" (1966), de Michelangelo Antonioni, e "A Conversação" (1974), de Francis Ford Coppola. 

Há ainda referências a Hitchcock, como a cena do chuveiro remetendo a "Psicose" (1961), e a crescente sensação de que o protagonista está sendo observado e caçado, cria uma atmosfera de tensão sexual e paranóia, também muito presente em obras como "Um Corpo que Cai" (1958) e "Janela Indiscreta" (1964). Vale ainda ressaltar a semelhança do título original, "Blow Out", com o título da obra de Antonioni, "Blow-Up".

"Blow-Up" e a imagem
Assim como no filme de Antonioni, onde um fotógrafo descobre um possível crime ao ampliar uma fotografia tirada no parque, 

"Um Tiro na Noite" centraliza sua narrativa na busca por uma verdade escondida em um registro. A diferença é que a foto é substituída pelo som, e a busca é feita por um técnico de áudio. 

É simplesmente genial o artifício utilizado pelo personagem Jack Terry, interpretado por John Travolta, para simular o atentato que é o ponto central do filme. Tudo de forma analógica, mas eficaz.

"A Conversação" e o som
A inspiração em "A Conversação" é a mais evidente. O protagonista é um especialista em som, assim como o personagem de Gene Hackman. 

Ele vive isolado em um mundo de ruídos e gravações, e a sua rotina é quebrada quando ele registra acidentalmente um acidente que se revela um assassinato. 

A tensão do filme é construída a partir da audição repetida e da análise minuciosa da gravação, em uma analogia à paranoia e à solidão que a busca pela verdade pode gerar. 

O filme se beneficia imensamente da época em que foi produzido, explorando a tecnologia analógica para criar uma atmosfera de sus-pense palpável. 

A manipulação de fitas, a mixagem de sons em estúdio e a forma meticulosa como o protagonista trabalha com o áudio dão um charme especial à trama. 

A limitação tecnológica da época torna cada descoberta mais significativa e ca-da erro mais dramático. A atuação de John Travolta é um dos pontos altos do filme. 

No papel do técnico de áudio, ele entrega uma performance contida e introspectiva, mostrando a sua versatilidade para além dos filmes musicais que o consagraram na década de 1970. 

O seu personagem é um homem comum, que é arrastado para o centro de uma conspiração. A sua química com Nancy Allen, que interpreta a personagem Sally, também se destaca, e a dupla constrói uma relação de cumplicidade que é central para a narrativa. 

A direção de Brian De Palma, conhecido por sua estética visual e por cenas de suspen-se, é notável. Ele utiliza longos planos e ângulos de câmera sugestivos para envolver o espectador na paranoia do protagonista. 

A conspiração política, pano de fundo do filme, culmina em um clímax explosivo e devastador em um feriado americano. 

* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade. E-mail: joaogabrielpcf@gmail.com

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