O destino de Poços de Caldas: ao Inferno, de Dante?

Ago 14, 2025 - 23:46
O destino de Poços de Caldas:  ao Inferno, de Dante?

O jornal O Globo, em 1997, publicou uma coletânea de contos de Artur Azevedo ("Contos escolhidos"). Num desses contos vê-se o que seria a primeira menção positiva a Poços de Caldas. Já como destaque nacional. A primeira, entre muitas outras. 

O autor teria sido o mais popular contista, jornalista e dramaturgo de sua época, na virada dos séculos XIX e XX, no Rio de Janeiro. Irmão do famoso literato Aluísio Azevedo (autor de "O cortiço"). 

Sua obra, mais popular que a do irmão, acabou por servir de pano de fundo para uma importante publicação da historiografia brasileira: "Os bestializados...", da lavra do acadêmico (da Academia Brasileira de Letras), José Murilo de Carvalho. Mineiro, Cientista Político, formado pela UFMG. 

Artur Azevedo tratou da imagem de Poços com o devido respeito que merece. Isso, há mais de cem anos.

Uma pena que a cidade não tenha merecido o mesmo respeito, por parte de algumas pessoas que ocuparam, irresponsavelmente (hoje se vê), a Administração Pública Municipal. 

E que, possivelmente, ainda ocupam ou dela participam, de algum modo, com a mesma desfaçatez. Lamentável. 

Diz-se isso em razão do fato de negarem, ou subestimarem, as calamidades administrativas, e políticas, causadas por eles próprios. Pelo seu despreparo moral e incompetência geral. 

É de se lamentar, sobretudo, o conjunto da obra. Os diversos problemas vividos pela cidade, nesse início de administração, são de tirar o fôlego. 

O atual prefeito, assessor e preposto do anterior, Paulo Ney (conhecido por "Sérgio Ney"), está sob o signo da calamidade. 

De tal sorte grave que se pergunta: "haverá lideranças municipais, aptas a solucionar a tragédia que se avizinha? ". 

Sabemos que grandes lideranças já houve, ao longo da história da cidade. Mas, e agora? Onde estarão? Se existirem, que se apresentem. 

Chegou a hora. A primeira surpresa, de amplo conhecimento público, foi o cancelamento do convênio da Saúde, celebrado com a Santa Casa de Salto de Pirapora. 

Nos primeiros dias da nova Administração, o convênio foi solenemente cancelado, por inservível e antieconômico. 

Esse mesmo, objeto de vênias e elogios durante a campanha eleitoral, apesar das polêmicas. Mentiram, enganaram e desrespeitaram a população de Poços. 

Teria havido o que se chama de "estelionato eleitoral". Já conhecido da população brasileira. Mas nunca antes visto, com tamanha "cara de pau", pelos poços-caldenses. 

O que se sabe, do malfadado convênio, além de ter sido rejeitado pela atual Administração, seria que é objeto de uma denúncia, em trâmite no Tribunal de Contas do Estado. 

Num parecer do Órgão Técnico, aquele Tribunal recomendou o ressarcimento dos prejuízos e a prisão dos antigos gestores e responsáveis pelo convênio. 

Em algum momento, sob a fiscalização do Ministério Público, o julgamento se dará. E poderá não restar pedra sobre pedra. 

Com essas pedras, poderão construir as paredes das celas, que abrigarão os antigos gestores: nas penitenciárias correspondentes. 

Os mesmos que, de forma arrogante, orgulhosa e temerária, desfilaram pelas ruas da cidade que traíram. Conforme disse o cancioneiro popular, na pessoa de Geraldo Vandré: "Madeira de dar em doido vai descer até quebrar. É a volta do cipó de aroeira, no lombo de quem mandou dar". 

Esse mesmo Tribunal, colocou a cidade sob alerta administrativo, com base nos postulados da Lei de Responsabilidade Fiscal. A rigor, cada real arrecadado pelo Município já se encontra comprometido. 

Não há recursos para investimentos, novos programas, aumentos salariais ou novas contratações. Não haveria, sequer, recursos para obras de manutenção. 

Até mesmo uma nova pintura, numa escola ou posto de saúde, encontra-se suspensa. Simplesmente, não há dinheiro. 

E isso se dá sob uma dívida consolidada, na casa do bilhão de reais. Isso segundo informações públicas, dos atuais gestores municipais. Se não, mais que bilhão. 

Há que se computar, ainda, débitos com precatórios, com restos a pagar e um déficit operacional, que jazem sob controvérsias. Mas somariam centenas de milhões de reais. 

Seria importante lembrar que, ao "rombo" de 33 milhões denunciados na Saúde, somam-se outros 32 milhões de reais "sumidos" na Educação. Não sabem onde estão... 

Auditorias já foram aprovadas pela Câmara Municipal, objetivando chegar às respostas. Quanto seria o total do descalabro? 

O descontrole chegou a tal ponto (ou seria desonestidade?), que essa pergunta se projeta sobre a cidade como se fora uma charada, proposta pela própria Esfinge: "Decifra-me ou devoro-te". Eis a sentença. 

A isso soma-se a nomeação ilegal do ex-prefeito, para comandar uma estatal do Município. Provimento judicial afastou o nomeado, que nem sequer esperou a notificação. Colocou a viola no saco e foi-se. E não recorreu. Já sabia da ilegalidade. 

Demonstraram assim pouco apreço às formalidades legais, numa postura delinquente. Novos capítulos estão em curso, especialmente aqueles relativos à construção do Centro Administrativo e à controversa permuta do Complexo Santa Cruz: patrimônio municipal de grande valor, negociado ao arrepio da Lei. 

Na terça-feira, 13 de agosto, houve prisões, inclusive de um ex-servidor municipal, além de buscas e apreensões. A acusação seria de golpes no âmbito da Prefeitura. 

A expectativa seria de que outras operações desse tipo virão. Acompanhadas de delações premiadas. Isso projeta mais sombra sobre a antiga administração. 

E sobre a atual, haja vista as conexões entre ambas. Uma lambança que confirma a avaliação feita alhures: as duas administrações municipais anteriores, e talvez a atual, chafurdaram na lama. 

Que lhes seja destinado o chiqueiro que eles próprios construíram. Nesse caso, aos porcos as porcarias.

* Marco Antonio Andere Teixeira é historiador, advogado e cientista político. E-mail: marcoandere.priusgestao@gmail.com  

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