Doomscrolling e a fadiga emocional coletiva: quando se informar passa a adoecer
Nos últimos anos, especialmente em períodos de crises sociais, políticas e sanitárias, um comportamento tem se tornado cada vez mais comum: o doomscrolling.
O termo vem do inglês doom (desgraça, tragédia) e scrolling (rolar a tela) e descreve o hábito compulsivo de consumir notícias negativas de forma contínua, muitas vezes sem perceber o impacto emocional desse comportamento.
Associado a ele, surge um fenômeno igualmente preocupante: a fadiga emocional coletiva - um estado de esgotamento psicológico compartilhado por grandes grupos de pessoas, resultado da exposição constante a más notícias, conflitos, catástrofes e discursos alarmistas.
Mas por que, mesmo nos sentindo mal, não conseguimos parar? Por que as pessoas não conseguem parar de consumir notícias ruins?
Do ponto de vista psicológico, o ser humano possui um viés de negatividade: nosso cérebro foi evolutivamente treinado para prestar mais atenção a ameaças do que a informações neutras ou positivas. Em tempos primitivos, isso aumentava as chances de sobrevivência.
Hoje, porém, esse mesmo mecanismo nos mantém presos a um ciclo de alerta permanente. Além disso, em contextos de instabilidade, muitas pessoas acreditam que consumir mais informações trará controle e segurança.
O problema é que, na prática, ocorre o oposto: quanto mais se consome, maior é a sensação de angústia. O doomscrolling alimenta a ansiedade ao manter o organismo em estado constante de tensão.
Notícias negativas ativam o sistema de estresse, elevando níveis de cortisol e criando uma sensação de urgência contínua. Paradoxalmente, quanto mais informação se consome, maior pode ser a sensação de impotência.
A pessoa sabe de tudo, mas não consegue agir sobre quase nada. Esse excesso de consciência sem possibilidade de ação gera frustração, desesperança e exaustão emocional.
Com o tempo, esse padrão pode se transformar em um vício em informação. Não se trata apenas de curiosidade, mas de um comportamento compulsivo, no qual o cérebro busca constantemente novas atualizações, mesmo sabendo que elas causarão desconforto.
As redes sociais e plataformas de notícias não são neutras. Seus algoritmos são programados para maximizar engajamento, priorizando conteúdos que geram reações emocionais intensas como medo, raiva, indignação.
Quanto mais tempo uma pessoa permanece em uma notícia negativa, mais conteúdos semelhantes lhe são oferecidos.
Cria-se assim uma bolha emocional, onde o mundo parece constantemente em colapso, mesmo quando a realidade é mais complexa e diversa.
Esse ambiente digital favorece o doomscrolling e contribui diretamente para a fadiga emocional coletiva. Estar informado não é o mesmo que estar sobrecarregado.
Existe uma diferença fundamental entre informação consciente e consumo emocionalmente excessivo de notícias. Estar informado implica buscar fontes confiáveis, em horários definidos, com senso crítico e limites claros.
Já o doomscrolling é marcado pela ausência de limites, pela repetição e pela exposição prolongada a conteúdos que ultrapassam a capacidade emocional do indivíduo de processá-los.
Quando a informação deixa de ampliar a compreensão e passa a gerar sofrimento constante, ela deixa de cumprir sua função saudável.
A fadiga emocional coletiva não afeta apenas indivíduos isolados. Ela se manifesta em aumento de irritabilidade social, desesperança generalizada, polarização e dificuldade de empatia.
Falar sobre doomscrolling não é incentivar a alienação, mas sim promover consciência emocional. Cuidar da saúde mental também envolve aprender quando pausar, filtrar e proteger a própria mente.
Em um mundo hiperconectado, talvez uma das atitudes mais saudáveis seja reaprender a se informar sem se adoece.
* Cristiane Fernandes é outoranda em Psicologia da Saude, pedagoga e educadora musical
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