Torre de Babel
O mito bíblico relativo à Torre de Babel explica, à sua maneira, os fundamentos da mútua incom-preensão humana. Seria decorrente de um castigo à arrogância dos homens, em desafio a Deus.
A humanidade, então, logo após o "Dilúvio" bíblico, falava um único idioma. Teriam se reunido na região da Mesopo-tâmia e iniciado a construção de uma torre, destinada a "alcançar os céus" e eternizar essa conquista: a Torre de Babel.
O nome Babel, por outro lado, viria de "bãlal" (confundir). A confusão, o caos, o desencontro seria uma condição maligna, atribuída às legiões do inferno.
E também à condição humana. Seria bom lembrar que os casos de possessão demoníaca (há quem acredite) começariam pela desabilitação psíquica do possuído. Gerando o caos.
Curiosamente, há uma coincidência científica aí. Nessa região, também conhecida como "crescente fértil", teriam se encontrado os Neandertais (vindos da Europa) com os Sapiens-sapiens (vindos da África).
Do seu cruzamento teria resultado a atual espécie humana, bem como sua sociedade, em seus primórdios. Então, não falavam idioma algum, não havia a linguagem, o que pode ser comparado a falar "o mesmo idioma": qual seja, não falavam, simplesmente.
Fica o registro. Deus puniu essa atitude arrogante (a construção de uma torre monumental), instalando a discórdia entre os homens, concedendo-lhes diferentes idiomas.
Isso teria dispersado e dividido a humanidade sobre a terra. Impossibilitando o mútuo entendimento humano.
O que ainda persiste, ainda que tenhamos o tradutor universal do Google. Outro caminho de solução, para esse problema, se apresenta: a Inteligência Artificial, que tornará obsoleta a humanidade e suas absurdas características. Deus intervirá novamente?
Talvez não. Sem a humanidade, Deus, provavelmente, ficaria livre da maioria dos problemas de seu ofício. A conferir.
Todavia, a mútua incompreensão humana, instalada pela via da multiplicidade de idiomas, segundo o Gê-nesis (capítulo 11), iria além disso.
Dá-se, com impressionante frequência, entre os viventes que falam o mesmo idioma e vivem, aparentemente, a mesma realidade - no mesmo tempo histórico.
Nesse caso, temos um exemplo recente: a pesquisa Quaest, amplamente divulgada no início de 2026. Os números são contraditórios, mas defensáveis e com fundamento.
Embora expressem, taxativamente, a nossa incompreensão genérica. Além de uma evidente discórdia. A Babel estaria vigente entre nós, ainda que tenhamos alguma identidade linguística. Vejamos.
Segundo a mencionada pesquisa, 52% dos entrevistados entendem merecida a prisão de Bolsonaro e seus pares. Na qualidade de delinquentes, teriam sido julgados, acusados de tentativa de golpe de Estado e condenados por isso.
Já 41% veem essa condenação como resultado de perseguição política, do órgão julgador, no caso o STF (Supremo Tribunal Federal), questionando sua legitimidade para tanto.
Grave, pois sugere uma severa divisão da sociedade que, em última instância, dá sustentação ao governo e, no limite, ao próprio Estado.
Quanto aos fundamentos da mencionada prisão, 31%, uma parcela majoritária nesse quesito, entende que Bolsonaro teria sido preso por ter "violado" a tornozeleira eletrônica.
Não haveria questionamento, ou pior, compreensão, das razões pelas quais o homem estava usando semelhante artefato eletrônico, que o manteria em prisão domiciliar.
Grave, pois se toma as consequências pelas causas. Temos, portanto, três indicadores majoritários. Grosso modo (considerando margens de erro), metade da população considera justa e adequada a prisão do ex-presidente e companhia.
Outra metade considera a prisão fruto de perseguição política. Isso por simples razão: dado o desenfreado ativismo, imprudência e indecência do STF, esse órgão é visto como uma instituição política. Sendo suas decisões, por conseguinte, políticas.
Sem a probidade, ou isenção, que deveria ser exercida por uma Corte, fosse qual fosse. Mormente uma Suprema Corte.
O que confere ao sistema político um quadro de ilegitimidade de um de seus principais pilares (se não o principal), dada sua suposta natureza democrática, de direito.
O órgão que deveria ser necessariamente isento (o STF) é visto como parcial, ou ilegítimo, por grande parte da população.
Por fim, um terço dessa mesma população não faz ideia, ou tem compreensão, do que efetivamente está ocorrendo.
Pois seu nível de cognição se limita à imagem da tornozeleira violada por Bolsonaro, com um "ferro de solda". Babel total. Esse é o pessoal que vai definir o destino do Brasil, no ano que vem.
* Marco Antônio Andere Teixeira é historiador, advogado, cientista político (UFMG), pós-graduado em Controle Externo (TCEMG/PUC-MG), Direito Administrativo (UFMG) e Ciência Política (UFMG). E-mail: marcoandere.priusgestao@gmail.com
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