Sonhos de Trem: onírico e literário
Filme é uma jornada contemplativa sobre a vida de um trabalhador no início do século XX e as transformações dos Estados Unidos
Existem filmes que funcionam como exercícios contemplativos. Obras que, ao chegarem ao fim, nos fazem permanecer em silêncio, no escuro da sala, iluminados apenas pela luz dos créditos e embalados pela música que ainda ecoa.
Sonhos de Trem é exatamente esse tipo de filme: uma experiência que convida mais à reflexão e ao sentir do que à simples compreensão racional.
Em Sonhos de Trem, acompanhamos Robert Grainier (Joel Edgerton), um entre tantos trabalhadores responsáveis pela construção e expansão das ferrovias norte-americanas no início do século XX.
Órfão desde muito jovem, Robert cresceu em meio às vastas e imponentes florestas do Noroeste do Pacífico, aprendendo a sobreviver em um ambiente tão grandioso quanto implacável.
Com o avanço acelerado do século, o trabalho exaustivo o mantém por longos períodos afastado de quem mais ama: sua esposa, Gladys (Felicity Jones), e sua filha pequena.
O filme percorre a vida de Robert em seus gestos cotidianos, suas breves felicidades, tragédias e incertezas, tudo isso inserido em um Estados Unidos em plena e profunda transformação ao longo do século XX.
Acompanhamos a trajetória de Robert como se estivéssemos lendo capítulos de um livro. Conhecemo-lo ainda jovem: ele nunca conheceu os pais, e uma de suas memórias mais antigas está ligada a uma profunda injustiça social.
Desde cedo, tenta compreender o mundo e, sobretudo, seu lugar nele. Nada parece fazer sentido até o encontro com Gladys, o grande amor de sua vida. Vemos sua família se formar, a relevância de seu trabalho e, ao mesmo tempo, o peso da ausência constante no lar.
Robert é um homem solitário. Ainda assim, em suas poucas interações, os vínculos que constrói e as conversas que compartilha acabam moldando sua existência.
Seja com o veterano Arn Peeples (interpretado de forma calorosa por William H. Macy), com o dono da venda Ignatius Jack (Nathaniel Arcand), com a ex-enfermeira (Claire Thompson) ou, principalmente, com sua família, são essas relações que o ajudam a compreender o significado de sua passagem pelo mundo.
Apesar de ambientado em um contexto histórico e geográfico bastante específico, o longa se revela profundamente universal, abordando temas como luto, imigração, questões ambientais e relações familiares. Grande parte da força do filme reside em sua construção visual.
Com a excelente direção de fotografia do brasileiro Adolpho Veloso, a natureza deixa de ser apenas cenário e se transforma em um personagem fundamental da narrativa.
As locações em paisagens bucólicas, somadas ao trabalho minucioso de enquadramento e luz, conferem à obra um caráter quase espiritual, de atmosfera arcádica.
A sensação de pequenez diante do mundo natural e de profunda conexão com ele atravessa toda a trama, frequentemente simbolizada pelo posicionamento dos personagens nos terços inferiores do quadro ou em amplos planos gerais.
Outro eixo essencial da narrativa é a relação com o fogo, que evolui de elemento funcional para força simbólica ativa da história.
Aquilo que inicialmente surge como aliado, responsável por aquecer, iluminar e garantir a sobrevivência, aos poucos assume um papel ameaçador, transformando-se em uma potência destrutiva capaz de consumir tudo o que antes sustentava o personagem.
Em suma, Sonhos de Trem narra, por meio da vida comum de um homem comum, as grandes transformações dos Estados Unidos: mudanças econômicas, sociais e comportamentais de um país que se industrializa, entra em guerras e se urbaniza rapidamente.
Seu maior mérito, no entanto, está em se tornar atem-poral e profundamente identificável, ao lembrar que a vida da maioria das pessoas não é feita de grandes eventos ou momentos explosivos.
A beleza, e, sobretudo, a emoção, reside justamente nos vínculos, na permanência e no ato de viver ao lado daqueles que se ama.
Para quem só se importa com números: Nota 9/10
* Igor Biagioni Rodrigues é bacharel em Cinema de Animação e pós-graduado em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais. Texto originalmente publicado no site Desenhos Recordatórios
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