Professores exauridos: o peso da capacitação que mata

Set 30, 2025 - 11:42
Set 30, 2025 - 11:47
Professores exauridos: o peso  da capacitação que mata

Ser professor no Brasil hoje é sobreviver a uma rotina desgas-tante e invisível. Entre turmas superlotadas, falta de recursos, infraestrutura precária e desrespeito cotidiano, o docente luta para ensinar e se manter saudável, enquanto o governo insiste em sobrecarregá-lo. 

Sob a justificativa de “melhorar a qualidade do ensino”, professores são submetidos a cursos extensos, provas e leituras obrigatórias, muitas vezes com datas trocadas de última hora e lives que não dialogam com sua realidade. 

Quem não cumpre sofre desconto no salário. O que deveria ser capacitação se tornou fardo e fonte de adoecimento. O maior descaso dado pelo poder público é ouvir sem escutar. 

Gestores querem mostrar sua capacidade administrativa, mas esquecem que, para isso, precisam do material humano essencial: o professor - aquele que é ouvido, mas não escutado. 

Para mudar essa realidade, seria importante criar canais de diálogo que realmente funcionem, como ouvidorias ativas, fóruns regionais e pesquisas periódicas que deem voz aos professores e ajudem a identificar suas necessidades de forma concreta. 

Ouvir o professor vai muito além de uma formalidade ou obrigação legal; é reconhecer sua experiência, conhecimento prático e os desafios reais enfrentados em sala de aula. 

Quando o docente é efetivamente escutado, é possível identificar necessidades concretas, adaptar políticas educacionais, oferecer suporte adequado e prevenir o adoecimento. 

Um professor ouvido se sente valorizado, engajado e motivado, o que reflete diretamente no aprendizado dos alunos e na melhoria da qualidade do ensino. 

Ignorar essa voz não apenas agrava a sobrecarga emocional e física do profissional, mas também compromete o desenvolvimento integral da educação, gerando perdas humanas, pedagógicas e econômicas para o país. 

O que poucos sabem é que, além da sobrecarga de cursos e burocracia, professores lidam diariamente com situações de violência, negligência e abandono social dentro das escolas. 

Muitas vezes precisam atuar como mediadores de conflitos familiares, lidar com crianças em situações de vulnerabilidade extrema e cobrir lacunas que deveriam ser responsabilidade de outros serviços públicos. 

Todo esse esforço emocional passa despercebido pelo sistema, mas pesa cada vez mais na saúde mental do docente. As consequên-cias são alarmantes. 

Segundo a Unifesp, 32,75% dos professores da educação básica apresentam sintomas de burnout, e só no Paraná, em 2024, mais 8.800 docentes foram afastados por problemas de saúde mental , quase 13% estão ligadas a rede publica. 

Um professor adoecido não consegue ensinar, inspirar ou cuidar de crianças em pleno desenvolvimento. É hora de repensar a educação: capacitar deveria significar valorizar e fortalecer, não esgotar. 

O líder precisa ouvir de verdade, respeitar limites e garantir condições humanas de trabalho. Cuidar do professor é cuidar do futuro do país.

* Cristiane Fernandes é doutoranda em Psicologia, graduada em Psicologia, Pedagogia e Música

 

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