“Pecadores”: um grito de horror e crítica social

Filme subverte o gênero de horror para criar uma metáfora sobre a perseguição e a violência

19 Set, 2025 - 23:56
“Pecadores”: um grito de horror e crítica social
“Pecadores”: horror e crítica social se entrelaçam em uma obra que revisita o blues e a segregação racial dos anos 1930

"Pecadores" (2025), o novo filme de Ryan Coogler que está disponível na HBO Max, mergulha o espectador em uma atmosfera densa e opressora, transportando-o para o sul dos Estados Unidos em 1932. 

Neste cenário de crise econômica e intensa segregação racial, o diretor habilmente usa o terror como lente para explorar as profundas feridas do preconceito. 

A trama se desenrola em meio ao vibrante, mas também sofrido universo do blues, que serve como a melancólica trilha sonora de uma sociedade dividida. 

A forma como se constrói esse universo, misturando racismo, música e horror, é tão bem elaborada que a presença dos vampiros soa verossímil. 

De fato, se sente medo e pavor das criaturas, especialmente na forma como elas se relacionam com as vítimas. 

É um meio-termo interessante entre a matança desenfreada como em "30 Dias de Noite" (2007) e as versões mais humanizadas de "Crepúsculo" (2008). 

O filme se destaca por sua ousadia ao escalar um elenco majoritariamente negro, uma escolha que não é apenas estética, mas fundamental para a narrativa. 

Ao colocar personagens negros como alvos de uma horda de vampiros brancos, "Pecadores" subverte o gênero de horror para criar uma poderosa metáfora sobre a perseguição e a violência sistêmica. 

A luta dos personagens contra as criaturas é uma analogia que ecoa a batalha diária por sobrevivência e dignidade em um período onde o racismo era brutalmente explícito. 

A opressão e a segregação, que eram a realidade diária para a população negra nos anos 1930 nos EUA, são transformadas em um horror literal, onde os "monstros" são um reflexo distorcido da sociedade. 

A perseguição dos vampiros brancos, sedentos pelo sangue de suas vítimas negras, remete diretamente ao terror da Ku Klux Klan e aos linchamentos que assolavam a região. 

O filme estabelece pontes com obras como "Mississippi em Chamas" (1988), no que tange a brutalidade do racismo, e "Um Drink no Inferno" (1996), ao transformar a luta em um bar em um combate épico pela sobrevivência, que é de tirar o fôlego. 

A direção é um ponto alto, com uma fotografia que captura a poeira e o calor sufocante do Mississipi, enquanto a trilha sonora, embalada por clássicos do blues, adiciona uma camada de autenticidade e melancolia. 

Michael B. Jordan interpreta os gêmeos Fuligem e Fumaça, parecidos fisicamente, mas diferentes na personalidade, entregando uma grande atuação. 

"Pecadores" usa de forma muito convicente o sobrenatural para iluminar uma das páginas mais sombrias da história americana.

* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade 

 

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