Ordem do Dia 28/01/26
Marco Antônio Andere Teixeira faz uma breve análise sobre fatos do dia
Começou a temporada de teatro em BH de 2026. Uma das peças em cartaz, no teatro Marília, Otelo, de Shakespeare, recebeu uma adaptação moderna, uma simplificação dos personagens, mas manteve o núcleo central da trama.
Coincidência, ou não, essa tragédia escrita no século XVII, a exemplo da abordagem do personagem Sherazade, em "As mil e uma noites", trata de um flagelo que atinge a sociedade brasileira, atualmente: o feminicídio.
Este colunista confessa, e reitera, que o fenômeno dessa crescente violência contra a mulher seria inexplicável. Incompreensível.
Há uma expressão popular que diz: "homem é igual lata. Uma mulher joga fora, outra cata". Se assim é, qual a razão dos recordes feminicidas, vividos nos últimos anos?
Um assassinato desse tipo destrói tudo, privando o assassino do objeto de seu desejo, problematizando o resto de sua vida de diversas formas. Logo, foge da racionalidade esse tipo de ação.
Se formos a Shakespeare buscar o perfil de Otelo, o feminicida primordial, o que veremos?
Primeiro, que o poder, a reputação e a nobreza de Otelo não amenizaram sua conduta. Tampouco o amor de Desdêmona.
Prevaleceu o ciúme, catalisado pela baixa autoestima de Otelo, impulsionada pelo preconceito e pela sua incapacidade de enxergar o outro.
Se essa for a receita do perfil feminicida, vigente desde o século XVII, a abordagem do problema exige imediata reflexão. Tendo o preconceito e a ignorância como pedras de toque.
Mas como tratar desse problema numa sociedade que despreza a educação e a cultura, projetando a ignorância em todos os níveis? Inclusive no exercício do poder? Como diria a teatrólogo Nelson Rodrigues: eis o busílis.
Haverá mais duas apresentações, em 2 e 3 de fevereiro. Além da trilha excepcional, o espetáculo não faz concessões: sem alegorias, mostra a entrega e o trabalho brutal da representação, sem filtros.
A escolha do tema mostrou-se oportuna, "feliz" num contexto infeliz.
* Marco Antônio Andere Teixeira é historiador, advogado, cientista político (UFMG), pós-graduado em Controle Externo (TCEMG/PUC-MG), Direito Administrativo (UFMG) e Ciência Política (UFMG). E-mail: marcoandere.priusgestao@gmail.com
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