Ordem do Dia 20/03/26
Marco Antônio Andere Teixeira faz uma breve análise sobre fatos do dia
A recente, e rumorosa, prisão preventiva do tenente-coronel da PM paulista, pedida pela corregedoria da própria corporação, sugere a intersecção entre arte e vida.
O homem foi preso em virtude da acusação de feminicídio, perpetrado contra sua bela esposa, também PM, morta no apartamento do casal.
O coronel teria forjado o suicídio da mulher. Uma covardia. Ocorre que história semelhante foi interpretada por uma série brasileira, intitulada "Bom dia Verônica", exibida na Netflix.
As tramas são muito parecidas. Uma das abordagens, descreve o relacionamento abusivo de um coronel da PM de São Paulo, que barbarizava a esposa.
Que acabou assassinada pelo marido policial. Um horror. Curiosamente, o mesmo processo de alienação familiar, observado na série, e o pedido de socorro da vítima à família, também ocorreu no caso concreto.
As mensagens, trocadas entre o casal real, mostram a mesma violência psicológica, o mesmo desrespeito e a mesma tentativa de submeter a vítima à humilhações, também vistas no relacionamento do casal ficcional. Isso mostra um padrão, claramente reconhecível.
Nesse caso, a arte imita a vida, tal como teria dito Aristóteles? Ou a vida imita a arte, como queria Oscar Wilde? Estaríamos diante de uma síndrome e, como tal, recorrente. Por qual razão?
Responder à essa pergunta seria desvendar o caminho de um labirinto mitológico. Que se localiza nos meandros da sociedade humana.
O destaque seria o modelo mental do feminicida, ou daquele que violenta a própria companheira: ele parece acreditar que está no exercício de seus "direitos". Essa síndrome, nessa medida, se revela profundamente doentia.
A reversão desse estado de coisas implica, no curto prazo, na punição do monstro, autor de tamanha violência. Mas no médio e longo prazos, depende de uma revisão, e recomposição, de valores, costumes e convicções sociais.
De resto, procedimento que poderia resolver problemas de toda ordem. Que passa pela educação, pela cultura, pela arte e pela crítica histórica e social. Mas quem quer isso? Qual medida existe para reverter, na prática, essa "epidemia" feminicida?
O governo federal publicou um documento, também firmado pelo Legislativo e Judiciário, propondo um "pacto nacional" contra o feminicídio.
Mais parece um blá-blá-blá, sem propor nada concreto. Privilegia ações na seara punitiva. Nesse ponto, a mulher já foi morta ou agredida e famílias inteiras devastadas. Não resolve o problema.
* Marco Antônio Andere Teixeira é historiador, advogado, cientista político (UFMG), pós-graduado em Controle Externo (TCEMG/PUC-MG), Direito Administrativo (UFMG) e Ciência Política (UFMG). E-mail: marcoandere.priusgestao@gmail.com
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