Ordem do Dia 17/03/26
Marco Antônio Andere Teixeira faz uma breve análise sobre fatos do dia
Esta coluna se manifestou quando da indicação do "Agente secreto" ao Oscar. Foram quatro indicações. Inclusive ao prêmio de melhor filme. Perdeu em todas.
Isso não deveria ser motivo de vergonha, ou razão para se tripudiar. A simples indicação à principal referência cinematográfica do mundo, extremamente concorrida, qualifica o filme. E seria certamente honrosa.
Feitas as ressalvas, seria hora dos fatos: a comparação de "O agente secreto" com "Ainda estou aqui", que ganhou o prêmio, desfavorece o primeiro.
Foi o que afirmou esta Coluna, à época. Até porque, ambos os filmes teriam pano de fundo semelhante e origem brasileira. O que permite a comparação.
Seriam ambos muito bons filmes, mas "Ainda estou aqui" seria mais emocionante. Propõe uma escala de angústia, devastação e impotência palpáveis.
Lembra, em certa medida, uma obra de Kafka, dado o absurdo da situação. Além disso, causaria o efeito "pó de pirlimpimpim" no expectador: o transporta, magicamente, para um outro tempo, um outro mundo. Sem nenhum deslize. Aí estaria um mérito indiscutível dessa obra.
Por outro lado, ainda que "O agente secreto" tenha qualidades notáveis, especialmente na representação de época, seria uma ficção. E, como tal, traz elementos um tanto caóticos, tais como "a perna cabeluda" e a "embaixada dos refugiados".
Haveria uma certa dificuldade de compreensão desses elementos, por parte do público internacional. E aquele tubarão, que abre o filme, introduzindo a "perna cabeluda", confere um toque lisérgico, ou fantasioso, à trama.
Aliás, bem ao gosto do diretor, que usou desse mesmo artifício "non sense" também em "Bacurau". O que sugere um dilema: seria uma tirada, tipo "O labirinto do fauno" nordestino?
Essa dúvida de estilos pode ter complicado a visão dos juízes. E dilemas, em certames ou julgamentos, concorrem contra a candidato. Especialmente se for estrangeiro. Melhor não arriscar, pensaria o juiz gringo: "do que se trata, afinal"?
O que revela mais um mérito de "Ainda estou aqui": caminhou pelo fio da navalha, tanto histórico quanto cenográfico, de modo impecável.
Abordando um assunto controvertido com elegância, o que deixou a extrema direita, sempre ignorante, furiosa. Investiram pesadamente contra "Ainda estou aqui". Mas não adiantou. Prevaleceu a arte. Os amantes da ditadura perderam essa.
* Marco Antônio Andere Teixeira é historiador, advogado, cientista político (UFMG), pós-graduado em Controle Externo (TCEMG/PUC-MG), Direito Administrativo (UFMG) e Ciência Política (UFMG). E-mail: marcoandere.priusgestao@gmail.com
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