Ordem do Dia 11/11/25
Marco Antônio Andere Teixeira faz uma breve análise sobre fatos do dia
A carta de Pero Vaz de Caminha não seria, apenas, o primeiro documento oficial sobre a "Terra Brasilis". Expressaria, também, o fundamento de uma vocação nacional e o segredo essencial da civilização humana. Vamos a isso.
Vaz de Caminha, ao dizer que "em se plantando, tudo dá", antecipou o maior sucesso da economia brasileira, que se deu em sucessivos ciclos: a exploração das potencialidades regionais e nacionais.
Ciclos extrativistas, tais como o do pau-brasil, do ouro e minérios em geral, bem como os ciclos das atuais "comodities", tais como o açúcar, o café, o gado, o mate, etc. Até que chegamos ao ponto de grande provedor mundial de segurança alimentar.
Esse seria o segredo civilizatório contido na carta de Caminha: a previsibilidade e o excedente de alimentos. Seriam o fundamento do desenvolvimento civilizatório.
Não apenas entre os rios Tibre e Eufrates, na antiga Mesopotâmia, a segurança alimentar proporcionou o nascimento de civilizações. O mesmo ocorreu no vale do Rio Nilo, milênios passados.
A soma de terra fértil, água, excedentes e capacidade de armazenamento traduz a civilização humana.
Entretanto, este colunista teve oportunidade de conhecer as missões jesuíticas, onde hoje temos a intersecção dos territórios brasileiro, argentino e paraguaio. Ali também houve um processo civilizatório, baseado na segurança alimentar.
Os guaranis, emulados e orientados pelos jesuítas, formaram um total de 26 missões, compostas por dezenas de milhares de indígenas.
A mais antiga, localizada no Brasil, onde hoje se encontra o município de São Borja, terra natal de dois ex-presidentes brasileiros.
Os guaranis saíram da pré-história, toscos e analfabetos, chegando a construir instrumentos musicais, tecer, forjar ferramentas, plantar, criar gado e comerciar.
Possuíam corais, onde praticavam o canto. Viviam numa espécie de "cooperativa", que premiava os mais produtivos e protegia os mais frágeis. Especialmente órfãos e viúvas.
Chegaram a esse nível motivados por uma única promessa, feita pelos jesuítas: segurança alimentar. O antídoto contra a imprevisibilidade e o caos.
Isso nos séculos XVI e XVII. Quando o novo mundo engatinhava, sendo destino dos enjeitados da terra.
Seu sucesso incomodou tanto que, sob a União Ibérica, foram destruídos.
As duas maiores potências coloniais da época, Portugal e Espanha, se uniram para destruir as missões.
Parte da moeda de troca foi a Colônia de Sacramento, hoje no território uruguaio, objeto de escambo.
Duas lições se apresentam: uma, a velha história de que tudo teria preço. Além do que, o sucesso pode levar ao reconhecimento, ou à destruição. Dependeria das circunstâncias.
* Marco Antônio Andere Teixeira é historiador, advogado, cientista político (UFMG), pós-graduado em Controle Externo (TCEMG/PUC-MG), Direito Administrativo (UFMG) e Ciência Política (UFMG). E-mail: marcoandere.priusgestao@gmail.com
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