O afeto como isca: o lado psicológico por trás dos golpes que crescem em Poços de Caldas

Dez 2, 2025 - 20:03
O afeto como isca: o lado psicológico por trás dos golpes que crescem em Poços de Caldas

Golpes virtuais e estelionatos cresceram de forma preocupante no Brasil, e não se trata mais de um problema distante. 

Criminosos modernos utilizam engenharia emocional para manipular sentimentos humanos legítimos, e mulheres têm se tornado o alvo preferencial. 

Em Poços de Caldas, esse cenário já deixa marcas profundas e revela o quanto a vulnerabilidade digital e emocional se cruzam. 

O Procon local registrou mais de 150 atendimentos de vítimas de golpes no último ano, incluindo fraudes bancárias, clonagem de WhatsApp e extorsões. 

Casos recentes ilustram a gravidade: três moradores perderam R$ 84 mil no golpe do chupa-cabra; uma mulher foi presa duas vezes por extorquir uma idosa; e um turista falsificou dados para se hospedar em um resort. 

Esses episódios mostram que o problema está no cotidiano da cidade. Nos golpes de falso relacionamento, a vítima é envolvida por atenção constante, elogios e mensagens que ativam dopamina, criando dependência emocional. 

O criminoso estuda fragilidades como solidão, baixa autoestima ou recente separação e constrói um vínculo que parece verdadeiro.Quando surge a falsa emergência financeira, a vítima já está emocionalmente comprometida. 

A sextorsão cresce em Poços de Caldas e no país. Criminosos ameaçam divulgar fotos íntimas, reais ou manipuladas e a vítima, tomada pelo medo da exposição, se cala. 

A vergonha é um dos sentimentos mais paralisantes e faz com que mulheres cedam a chantagens por temerem o julgamento social. 

O silêncio, aqui, se torna o principal aliado do golpista. No golpe da falsa central bancária, criminosos se passam por funcionários e usam tom técnico e seguro para induzir vítimas a instalar aplicativos ou fornecer códigos. 

Muitas obedecem por medo de admitir desconhecimento - o chamado Dunning-Kruger invertido, que faz a pessoa confiar totalmente na figura "especialista". 

Fatores emocionais e sociais tornam mulheres mais vulneráveis: maior carga afetiva, pressão estética, tendência ao diálogo, vergonha de admitir insegurança e maior exposição digital. Isso não é fragilidade: é o reflexo de papéis sociais que moldam o comportamento feminino e que os golpistas sabem manipular. 

O ponto mais perigoso dos golpes modernos não é a transferência bancária, é o momento anterior a ela. Criminosos primeiro conquistam atenção, confiança e vulnerabilidade. 

Eles invadem a rotina emocional, criam um lugar afetivo e transformam a vítima em cúmplice involuntária da própria perda. O ciclo funciona assim: vínculo rápido,elogios, validação, dependência emocional, isolamento, pedido de ajuda. 

A vítima não percebe que está sendo manipulada porque o que está em jogo não é lógica, e sim emoção. Muitas relatam que a pior parte não foi o dinheiro perdido, mas a sensação de terem sido enganadas em sua sensibilidade. 

Golpistas usam mecanismos psicológicos como busca por afeto, dopamina, validação, vergonha, atalhos mentais e fantasia de controle. Esses processos são comuns a qualquer ser humano, e é neles que o golpe se instala. 

A proteção começa na informação e na conversa: normalizar falar sobre golpes sem julgamento, fortalecer autoestima emocional, buscar informações simples sobre segurança digital e procurar ajuda ao menor sinal. Culpar vítimas só fortalece criminosos.  

Os golpes modernos revelam uma verdade desconfortável: somos todos vulneráveis quando buscamos afeto, quando queremos ser compreendidos, quando desejamos sentir pertencimento. 

É exatamente por isso que os criminosos atacam o emocional antes do financeiro ,porque sabem que o ser humano abre portas do coração muito antes de abrir a carteira. 

Há uma força imensa em reconhecer isso. Quando entendemos que a vítima não "caiu", mas foi psicologicamente conduzida, destruímos o estigma que mantém tantas mulheres presas ao silêncio. A vergonha é o cofre onde o golpista se esconde. 

E enquanto houver silêncio, haverá espaço para manipulação. Por isso, falar sobre golpes é falar sobre saúde mental, sobre relações humanas, sobre autocuidado e sobre educação emocional. 

É também uma responsabilidade comunitária: nenhum sistema de segurança é tão poderoso quanto uma rede social que conversa, acolhe e orienta sem julgamentos. 

Poços de Caldas, com toda sua identidade acolhedora, tem a chance de se tornar exemplo de uma cidade que enxerga a violência financeira e emocional como um problema coletivo, e não apenas individual. 

Quando uma mulher é enganada, toda a comunidade perde: perde segurança, perde confiança, perde a sensação de pertencimento. 

Mas quando uma comunidade entende, acolhe e discute o que realmente está em jogo, ela se torna mais forte que qualquer golpe. 

A vulnerabilidade pode ser invisível, mas a prevenção não pode ser. E reconhecer que todos somos humanos é o primeiro passo para que ninguém mais precise enfrentar esse tipo de dor sozinha.
                                                                                     
* Cristiane Fernandes é doutoranda em Psicologia da Saúde, pedagoga e Educadora Musical

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