O afeto como isca: o lado psicológico por trás dos golpes que crescem em Poços de Caldas
Golpes virtuais e estelionatos cresceram de forma preocupante no Brasil, e não se trata mais de um problema distante.
Criminosos modernos utilizam engenharia emocional para manipular sentimentos humanos legítimos, e mulheres têm se tornado o alvo preferencial.
Em Poços de Caldas, esse cenário já deixa marcas profundas e revela o quanto a vulnerabilidade digital e emocional se cruzam.
O Procon local registrou mais de 150 atendimentos de vítimas de golpes no último ano, incluindo fraudes bancárias, clonagem de WhatsApp e extorsões.
Casos recentes ilustram a gravidade: três moradores perderam R$ 84 mil no golpe do chupa-cabra; uma mulher foi presa duas vezes por extorquir uma idosa; e um turista falsificou dados para se hospedar em um resort.
Esses episódios mostram que o problema está no cotidiano da cidade. Nos golpes de falso relacionamento, a vítima é envolvida por atenção constante, elogios e mensagens que ativam dopamina, criando dependência emocional.
O criminoso estuda fragilidades como solidão, baixa autoestima ou recente separação e constrói um vínculo que parece verdadeiro.Quando surge a falsa emergência financeira, a vítima já está emocionalmente comprometida.
A sextorsão cresce em Poços de Caldas e no país. Criminosos ameaçam divulgar fotos íntimas, reais ou manipuladas e a vítima, tomada pelo medo da exposição, se cala.
A vergonha é um dos sentimentos mais paralisantes e faz com que mulheres cedam a chantagens por temerem o julgamento social.
O silêncio, aqui, se torna o principal aliado do golpista. No golpe da falsa central bancária, criminosos se passam por funcionários e usam tom técnico e seguro para induzir vítimas a instalar aplicativos ou fornecer códigos.
Muitas obedecem por medo de admitir desconhecimento - o chamado Dunning-Kruger invertido, que faz a pessoa confiar totalmente na figura "especialista".
Fatores emocionais e sociais tornam mulheres mais vulneráveis: maior carga afetiva, pressão estética, tendência ao diálogo, vergonha de admitir insegurança e maior exposição digital. Isso não é fragilidade: é o reflexo de papéis sociais que moldam o comportamento feminino e que os golpistas sabem manipular.
O ponto mais perigoso dos golpes modernos não é a transferência bancária, é o momento anterior a ela. Criminosos primeiro conquistam atenção, confiança e vulnerabilidade.
Eles invadem a rotina emocional, criam um lugar afetivo e transformam a vítima em cúmplice involuntária da própria perda. O ciclo funciona assim: vínculo rápido,elogios, validação, dependência emocional, isolamento, pedido de ajuda.
A vítima não percebe que está sendo manipulada porque o que está em jogo não é lógica, e sim emoção. Muitas relatam que a pior parte não foi o dinheiro perdido, mas a sensação de terem sido enganadas em sua sensibilidade.
Golpistas usam mecanismos psicológicos como busca por afeto, dopamina, validação, vergonha, atalhos mentais e fantasia de controle. Esses processos são comuns a qualquer ser humano, e é neles que o golpe se instala.
A proteção começa na informação e na conversa: normalizar falar sobre golpes sem julgamento, fortalecer autoestima emocional, buscar informações simples sobre segurança digital e procurar ajuda ao menor sinal. Culpar vítimas só fortalece criminosos.
Os golpes modernos revelam uma verdade desconfortável: somos todos vulneráveis quando buscamos afeto, quando queremos ser compreendidos, quando desejamos sentir pertencimento.
É exatamente por isso que os criminosos atacam o emocional antes do financeiro ,porque sabem que o ser humano abre portas do coração muito antes de abrir a carteira.
Há uma força imensa em reconhecer isso. Quando entendemos que a vítima não "caiu", mas foi psicologicamente conduzida, destruímos o estigma que mantém tantas mulheres presas ao silêncio. A vergonha é o cofre onde o golpista se esconde.
E enquanto houver silêncio, haverá espaço para manipulação. Por isso, falar sobre golpes é falar sobre saúde mental, sobre relações humanas, sobre autocuidado e sobre educação emocional.
É também uma responsabilidade comunitária: nenhum sistema de segurança é tão poderoso quanto uma rede social que conversa, acolhe e orienta sem julgamentos.
Poços de Caldas, com toda sua identidade acolhedora, tem a chance de se tornar exemplo de uma cidade que enxerga a violência financeira e emocional como um problema coletivo, e não apenas individual.
Quando uma mulher é enganada, toda a comunidade perde: perde segurança, perde confiança, perde a sensação de pertencimento.
Mas quando uma comunidade entende, acolhe e discute o que realmente está em jogo, ela se torna mais forte que qualquer golpe.
A vulnerabilidade pode ser invisível, mas a prevenção não pode ser. E reconhecer que todos somos humanos é o primeiro passo para que ninguém mais precise enfrentar esse tipo de dor sozinha.
* Cristiane Fernandes é doutoranda em Psicologia da Saúde, pedagoga e Educadora Musical
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