Meu encontro com o câncer

25 Mar, 2026 - 11:31
Meu encontro com o câncer

Agosto de 2025. Um susto, uma sentença dura, cortante. O médico, profissional reconhecido e competente, não conseguiu esconder a tensão; afinal dava notícia a um amigo de longa data. Sentou-se à minha frente e leu o laudo da biópsia com muito cuidado e pausadamente.

- É um tumor muito agressivo, Paulo. Muito rápido.

- Podemos dizer que se trata de um diagnóstico precoce? ponderei buscando alguma racionalidade na assustadora fração de tempo.

- Com certeza, sim. Essa é a boa notícia.

Havia feito meus exames de rotina há apenas algumas semanas e os resultados foram os de sempre - PSA muito baixo, nada anormal no ultrassom e no exame físico, o tal “toque” que afugenta tantas pessoas condicionadas por velhos preconceitos e medos.

O resultado positivo da biópsia surpreendeu, afinal pela regularidade dos exames, meu desconforto abdominal sugeria uma pesquisa gastro-intestinal.

Colonoscopia normal, a ressonância abdominal apontou o câncer na próstata. Sou de uma família, pais, irmãos e irmãs, em que o curso da vida se deu dentro de uma regularidade incomum – minha mãe e meu pai partiram em decorrência da idade, embora meu pai pudesse ter ido um pouco mais longe – forte e lúcido aos setenta e nove anos.

Um câncer de pulmão o levou em algumas semanas, fumante por mais de sessenta anos. Nunca comentei, por defensivo e irracional temor, que nossa família tão grande, tivesse passada ilesa diante de tantas situações trágicas que presenciei em minha volta.

Era a sorte grande, a mão de Deus protegendo. Entretanto, “sempre tem um porém”. Dos pesadelos herdados dos tempos cinzentos do arbítrio, um especialmente me apavorava as madrugadas - um clarão e um estampido como um tiro.

Dele acordava com o coração destrambelhado, a respiração presa e suor agudo, repentino - uma notícia ruim.

Foi o que senti quando a primeira reação passou. Esse era o tiro, o clarão, o estampido, mas estava vivo, embora atordoado e atordoado fiquei por mais algum tempo, procurando conselhos, socorro, opiniões. 

Dei-me o direito de ficar atordoado, confuso, “sem chão”; senti necessidade de passar integralmente pela experiência.

Fui encontrar o eixo após alguns dias, mapeado pelas conversas com minha mulher, filho, filhas, irmãos, irmãs, amigos mais próximos. Vivi a torrente de solidariedade desprendida, verdadeira em gestos, palavras e incentivo.

Passei pela primeira corda bamba e movi a primeira pedra no tabuleiro, entre o medo e a coragem, uma impossível combinação de defesa eslava e gambito do rei.

Exames de imagens, mais conversas, mais conselhos, mais orientações médicas e finalmente a cirurgia. Poucas semanas após o diagnóstico assustador, no dia 22 de setembro, fui submetido a uma prostatectomia radical.

A recuperação transitou entre a insegurança a cada novo exame e o dia a dia de aprender novamente as funções fisiológicas básicas do ser humano. Seis meses depois, ainda sou acompanhado e faço exames de rotina; vida quase normal.

Gratidão aos médicos, minha família, meus amigos e as incontáveis manifestações de apoio e orações. Mas a gratidão não cabe aqui, ela exige outro artigo.

* Paulo Tadeu é ex-prefeito e ex-presidente da Câmara de Poços 

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