Green Book: uma lição de humanidade em meio à segregação americana

12 Jan, 2026 - 18:26
12 Jan, 2026 - 18:28
Green Book: uma lição de humanidade  em meio à segregação americana
Viggo Mortensen e Mahershala Ali: atuações fantásticas

Quando se ouve falar do filme "Green Book: O Guia", disponível no Prime Video, pode-se pensar que se trata apenas de uma obra sobre a superação de preconceitos, como dezenas de outras que existem. 

O filme é muito mais que isso: é um retrato sensível e, por vezes, irônico das barreiras sociais dos Estados Unidos na década de 1960. 

O diretor Peter Farrelly consegue construir uma narrativa equilibrada entre o drama e o humor, utilizando a dinâmica de um road movie para explorar as feridas de um país dividido pelo racismo.

Inversão de papéis e atuações de gala
O grande trunfo da obra, que é baseada em fatos reais, reside no contraste de seus protagonistas. Mahershala Ali entrega uma atuação contida e poderosa como Don Shirley, um virtuoso pianista negro que desfruta de prestígio nos palcos, mas enfrenta a brutalidade do racismo assim que desce deles. 

A ironia central da trama - e um dos pontos mais discutidos pela crítica - é a inversão da hierarquia social da época: Shirley contrata Tony "Lip" Vallelonga, interpretado por um transformado Viggo Mortensen, para ser seu motorista e segurança em uma turnê pelo Sul segregacionista. 

Ver um homem branco, de modos rudes e histórico racista, a serviço de um artista negro refinado, soa como uma provocação necessária ao contexto histórico americano, desafiando as expectativas do espectador e dos personagens que cruzam seu caminho. As atuações são simplesmente fantásticas.

Contexto histórico e o "Livro Verde"
O título faz referência ao "The Negro Motorist Green Book", um guia real que indicava hotéis e restaurantes seguros para viajantes negros. 

O filme utiliza esse objeto como um símbolo constante do perigo iminente. Enquanto Tony aprende a reconhecer a dignidade de Shirley, o pianista confronta a solidão de não pertencer totalmente a mundo algum: nem ao círculo da elite branca, que o consome como entretenimento, nem à comunidade negra, da qual se distanciou por sua formação clássica. 

A fórmula do filme provou ser um sucesso absoluto na temporada de premiações. No Oscar de 2019, "Green Book" sagrou-se o grande vencedor da noite, levando a estatueta de Melhor Filme, além de Melhor Roteiro Original. 

Mahershala Ali também foi coroado com o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, consolidando sua posição como um dos grandes nomes de sua geração. Prêmios mais do que merecidos para um filme comovente e indispensável.

* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade 

 

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