Frankenstein: a humanização da tragédia
Mais uma versão de "Frankenstein" (2025), o clássico máximo da escritora inglesa Mary Shelley, chega ao público, agora adaptada pela Netflix, em direção do mexicano Guilhermo Del Toro, o que já desperta interesse e atenção por conta de seus trabalhos que sempre flertam com o bizarro e o estranho.
Como em grande parte das adaptações do livro, esta versão se concentra em um tema central: a humanização da criatura e a ambiguidade moral e ética de seu criador, Victor Frankenstein.
A tragédia da solidão
Longe de ser apenas um ser grotesco e mudo, a criatura aqui é apresentada como uma figura sensível, inteligente e profundamente solitária.
A narrativa dedica tempo a explorar a dor existencial da criatura, que foi rejeitada por seu criador e pela sociedade simplesmente por sua aparência.
Ela anseia por amor, compreensão e, acima de tudo, aceitação, um eco direto do romance original. Essa versão da Netflix aprofunda o processo de aprendizado da criatura, mostrando sua evolução de uma tábula rasa a um ser capaz de compaixão e, tragicamente, de vingança quando essa compaixão é negada.
Sua violência não é inata, mas uma consequência direta do abandono e da crueldade humana. Para realçar todo esse processo, o filme se divide em duas partes, mostrando as versões do criador e da criatura.
Comparação com a obra de Mary Shelley
A essência filosófica do livro de Mary Shelley é mantida, mas a execução se adapta ao ritmo e formato visual de um filme.
A criatura do livro é mais articulada, com melhor domínio da linguagem. Já a criatura do filme tem desenvolvimento emocional, mas os dialógos são mais enxutos ou focados em momentos-chave de desabafo. Quando surge, a única palavra que ela não parava de repetir é "Victor", em alusão ao criador/pai.
No filme, temos um ritmo mais dinâmico, o que é compreensível, em contraste com a versão mais lenta do livro, que foca mais em reflexões.
Fica evidente que a Netflix e o diretor Guilhermo Del Toro buscaram suavizar o profundo debate ético e científico do romance, transformando-o em um drama mais acessível, mas mantendo a crítica principal: o verdadeiro monstro é o criador.
Atuações
Oscar Isaac interpreta Victor Frankstein e entrega uma performance de foco intenso e quase insana. Sua atuação ilustra a decadência moral do cientista, mostrando a transição de um visionário ambicioso a um homem consumido pela culpa e pelo medo de sua própria criação.
A criatura (Jacob Elordi) transmite vulnerabilidade, raiva e inteligência por trás da maquiagem e dos efeitos visuais.
Ele usa com competência a linguagem corporal e o olhar para expressar o sofrimento de ser uma aberração, o que é fundamental para a empatia do público.
A fotogradia do filme, sombria e gótica, emoldura essas atuações e faz o espectador se sentir parte do filme.
É uma obra dramática que se apoia fortemente na interpretação do monstro como vítima. Embora possa não alcançar a densidade filosófica da obra de Shelley, funciona como uma tragédia psicológica moderna, que usa o horror e o melodrama para questionar o que significa ser humano e o preço da ambição desmedida.
* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade
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