Falha humana: por que a avaliação psicológica pode transformar o trânsito brasileiro
O Brasil convive há décadas com números alarmantes no trânsito. Somente em 2023, foram registradas cerca de 35 mil mortes nas vias do país, além de milhares de feridos que todos os anos lotam hospitais, deixam sequelas permanentes e geram um impacto social e econômico difícil de dimensionar.
Nas rodovias federais, somente em 2024, ocorreram mais de 70 mil acidentes, resultando em mais de 6 mil vidas perdidas.
Por trás dessas estatísticas, um ponto se repete: a falha humana é o principal fator envolvido. A impulsividade, a irritação, o estresse, a ansiedade e a dificuldade de lidar com frustrações têm se tornado parte da rotina de quem dirige.
E, diante desse cenário, ganha força a discussão sobre o Projeto de Lei 4111/23, que propõe a avaliação psicológica obrigatória também na renovação da Carteira Nacional de Habilitação (CNH).
A exigência já faz parte da primeira habilitação, mas hoje não acompanha a vida do motorista ao longo dos anos - justamente o período em que as mudanças emocionais mais acontecem.
A proposta parte de uma constatação simples e incontestável: o comportamento do motorista muda. Com o avanço da idade, transformações profissionais, pressões financeiras e dificuldades pessoais, o estado psicológico pode ser profundamente alterado.
E, ao volante, essas mudanças ganham poder destrutivo. Uma reação impulsiva, uma distração de poucos segundos ou a perda de controle emocional podem provocar tragédias irreversíveis. A avaliação psicológica surge, portanto, como ferramenta de prevenção.
Ela analisa atenção, memória, raciocínio e aspectos da personalidade que influenciam a direção. Não se trata de burocracia ou punição, mas de medir algo essencial e muitas vezes invisível: a capacidade emocional de conduzir um veículo em segurança.
Profissionais da área defendem que identificar sinais de vulnerabilidade - como irritabilidade extrema, tensão constante, impulsividade elevada ou dificuldade de administrar pressões - é essencial para reduzir riscos.
Assim como se exige exame de vista para garantir que o motorista enxerga bem, faz sentido exigir uma avaliação que garanta que ele também “enxerga” suas próprias emoções.
A discussão ocorre em um momento em que o país precisa rever suas estratégias para reduzir mortes no trânsito.
Melhorar vias, reforçar a fiscalização e investir em tecnologia são medidas úteis, mas insuficientes se o condutor continuar emocionalmente despreparado.
A segurança começa antes de ligar o motor: começa no equilíbrio de quem está atrás do volante. Se o Brasil busca um trânsito mais humano e seguro, é preciso reconhecer que, entre todas as tecnologias disponíveis, a mais importante continua sendo o comportamento do próprio motorista.
A avaliação psicológica, ao acompanhar essa condição ao longo dos anos, pode se tornar uma aliada essencial para salvar vidas - e transformar a realidade das ruas brasileiras
* Áquila Negrini da Silva é Mestranda em Psicologia da Saúde pela UMESP e Cristiane Fernandes Doutoranda em Psicologia da Saúde, Pedagoga e Educadora Musical
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