Cancele Bolsonaro!
Uma assídua leitora da coluna "Ordem do Dia" recomendou "esquecer" Bolsonaro, tendo em vista sua aparente derrocada política e jurídica. Seria isso possível?
A primeira pergunta seria simples: se a referida coluna deixasse de citar Bolsonaro, para o bem ou para o mal, faria alguma diferença?
Principalmente estando o entorno repleto de considerações a respeito do homem? Bolsonaro, familiares e aliados não deixam de protagonizar fatos com alguma relevância, que não podem ser simplesmente ignorados.
Além do que, mantém milhões de seguidores. A importância seria tal, que o último conjunto de ações levou Bolsonaro, preventivamente, à prisão. Não se trata de apontar se essa prisão teria sido justa ou não. Houve. Está preso.
Daí seria sensato ponderar suas circunstâncias - antes de se apostar em suas consequências. Se a ficção de H.G. Wells se realizasse e dispuséssemos de uma "máquina do tempo", algumas considerações "contrafatuais" poderiam ser, de fato, exercitadas.
Não é delírio: esse tipo de exercício é comum na filosofia, psicologia, história e ciência política. Especialmente na análise de políticas públicas, quando resultados são condicionados por escolhas concretas.
E, como tais, podem ser testadas a partir de uma realidade virtual. A Inteligência Artificial faz isso com relativa facilidade, especialmente se possuir as variáveis envolvidas.
No nosso modesto caso, a pergunta "e se" refere-se às escolhas de Bolsonaro e sua turma: "e se aceitassem a vitória de Lula? ".
"E se abstivessem do conjunto de ações que resultaram na condenação de centenas de Bolsonaristas? Especialmente do próprio Bolsonaro? ".
Considerando todos os erros cometidos, em particular o vandalismo praticado no dia 8 de janeiro, as intenções de voto que possui Bolsonaro, hoje, dificilmente estariam pior do que estão.
Portanto, um certo "silêncio estratégico" de Bolsonaro (coisa que ele jamais conseguiu, diga-se) o colocaria como virtual candidato à Presidente, com chances reais. Até porque, a rejeição a Lula continua alta - com a recorrente contribuição do próprio Lula.
E, certamente, por outro lado, as condições jurídicas de Bolsonaro estariam melhores. Provavelmente apto a disputar a Presidência da República, com viabilidade eleitoral, repetindo. O primeiro "senão", visto no tempo presente, estaria na Justiça Eleitoral.
Ainda que, no STF, pudessem ser mitigadas as condenações de Bolsonaro na Segunda Turma, com a soma de Fux, Nunes Marques e André Mendonça, no TSE Bolsonaro sofreu duas condenações que o levaram à inelegibilidade.
Independente se André Mendonça assumir a presidência desse Tribunal, no próximo ano, essas condenações não seriam revertidas.
Entretanto, no Congresso Nacional, onde as forças de direita e de centro-direita demonstram substantivo vigor, uma anistia eleitoral seria mais fácil de sair vencedora. Especialmente se Bolsonaro não estivesse condenado a 27 anos de prisão.
Os óbices seriam evidentemente menores. Até porque, anistia a ilícitos eleitorais, no Congresso, tem precedentes.
Mas toda essa conversa parece inútil diante da seguinte evidência: Bolso-naro e companhia, sistematicamente, atiram nos próprios pés e se desgastam junto aos seus aliados. Notadamente, os familiares protagonizam seguidas crises.
O que diria o agronegócio a respeito das tarifas às exportações brasileiras, empalmadas por Eduardo "bananinha"? Ou o que pensam os industriais brasileiros, ainda sacrificados por esse "fenômeno" vindo dos EUA?
Esses dois setores seriam majoritariamente bolsonaristas, nutrindo especial "alergia" a Lula. Analistas de economia estimam que só em Santa Catarina, por exemplo, Estado notadamente bolsonarista, 19 mil empregos serão perdidos na indústria, ainda neste ano.
O "efeito demonstração" desse fato não pode ser subestimado. As explicações relativas à violação da tornozeleira eletrônica, "atacada" por Bolsonaro, que confessou ter "metido ferro quente" no artefato, não melhoram sua situação.
Ao contrário. Justificativas baseadas em "paranoia", "interação medicamentosa", "surto psicótico" ou mesmo "curiosidade", não ajudam o homem. Pelo contrário.
No popular, seria biruta, burro ou irresponsável. Quem quer ser liderado por um tipo desse? O extraordinário sempre ronda Bolsonaro.
Até mesmo um evangélico auto-intitulado "comunista radical" discursou na vigília, organizada por Flávio Bolsonaro.
O "comunista" foi devidamente agredido pela assistência bolsonarista, após criticar o ex-presidente. Daí a pergunta: existe evangélico "comunista radical"?
Isso seria um notável contraponto à tese de Max Weber, que associa a ética protestante ao capitalismo. Esse "evangélico comunista" mais parece um personagem daquele filme: "Animais fantásticos e onde habitam"... Só em Hogwarts entenderiam esse fenômeno.
* Marco Antônio Andere Teixeira é historiador, advogado e cientista político
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