Azymuth explora o melhor do samba-jazz-funk em “Brazilian Soul”

27 Out, 2025 - 15:36
Azymuth explora o melhor do  samba-jazz-funk em “Brazilian Soul”
“Brazilian Soul”: quando o samba-jazz clássico do Azymuth se encontra com influências eletrônicas

Lançado em 2004 em comemoração aos 30 anos do grupo de música instrumental Azymuth, só tomei conhecimento da existência de "Brazilian Soul", em janeiro deste ano. 

Levei praticamente 20 anos para descobrir essa pérola da música brasileira, um álbum que apresenta uma sonoridade única, misturando o samba-jazz clássico do trio com influências eletrônicas e a colaboração de lendas do funk e jazz. 

"Brazilian Soul" marca um período de vigor criativo para o trio brasileiro Azymuth, composto por José Roberto Bertrami (teclados), Alex Malheiros (baixo) e Ivan Conti "Mamão" (bateria). 

O álbum foi re-cebido com entusiasmo por críticos e fãs, consolidando a capacidade do grupo de se manter relevante, fundindo seu DNA de samba-jazz-funk com novas texturas sonoras. 

Depois de conhecer trabalhos anteriores do grupo, é possível apontar que o disco reafirma a assinatura musical do Azymuth, em um estilo que eles próprios ajudaram a definir: uma complexa e viciante mistura de jazz fusion, funk carioca, bossa nova e soul music. 

Os grooves profundos de Alex Malheiros, os ritmos quebrados e precisos de Mamão, e os timbres espaciais e melódicos de Bertrami criam um mosaico sonora que é inconfundível.

Soul e jazz com participações especiais
"Brazilian Soul" não é um álbum estritamente instrumental. Ele se destaca pela inclusão de faixas que apresentam vocais, ampliando o alcance do trio ao incorporar elementos da MPB e do soul latino. As faixas com vocal no álbum são inseridas de forma estratégica. 

Elas introduzem uma camada à complexidade instrumental que se encaixa com perfeição. O vocal é sutilmente utilizado para dar cor e alma a certas composições, mantendo o foco primário no groove e na instrumentação virtuosa do trio. 

O álbum é notável por incorporar um número significativo de convidados de peso, que adicionam a dimensão vocal e soul ao trabalho, ao lado da inclusão de vocoders que dão um toque contemporâneo. Embora as faixas vocais específicas variem em destaque, elas frequentemente evocam o melhor do soul brasileiro. 

O álbum também conta com colaborações importantes de músicos, como a participação do saxofonista Léo Gandelman e do percussionista Robertinho Silva, que adicionam ainda mais riqueza e brasilidade à produção.

Faixas
"Estatico" é a faixa de abertura, que define o tom do álbum, marcada pelo uso hipnótico do teclado sobre um groove constante. 

É a vibe de lounge carioca com sofisticação jazzística. Depois, vem "Bião-zinho Carioca", uma das faixas mais longas (mais de 7 minutos), onde a banda mergulha fundo na improvisação do jazz-funk. Tem espaço até para texturas psico-délicas no sintetizador. 

"Sambafrica", como o nome sugere, é um caldeirão rítmico de elementos de percussão africana com a batida brasileira. 

Já "O Lance" e "Sem Destino" são exemplos clássicos do funk pesado e da fusion atmosférica que fizeram a fama do Azymuth nos anos 70 e 80. 

Embora o tracklist principal seja instrumental, as participações vocais em "Brazilian Soul" trazem uma rara e bem-vinda pegada de Soul e MPB ao trabalho, através das presenças de Emílio Santiago ("Demais"), Roberto Menescal "Pra Zé"), Marcio Lott ("Ed Lincoln", "Te Querendo", "Depois de Carnaval" e "Estático") e Fabíola ("Ed Lincoln" e "Depois do Carnaval"), que tendem a suavizar o experimentalismo fusion em favor de um soul mais melódico e acessível. 

"Brazilian Soul" é um disco coeso e atemporal, que olha para o futuro ao mesmo tempo em que presta tributo às suas raízes. Sem dúvida, um dos melhores álbuns brasileiros lançados no século XXI.

* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade 

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