Ordem do DIa 05/11/25

Marco Antônio Andere Teixeira faz uma breve análise sobre fatos do dia

Nov 5, 2025 - 15:17
Ordem do DIa 05/11/25

Ao comentar com um amigo, músico e teatrólogo, sobre uma obra de Nelson Rodrigues, "O reacionário", que foi prefaciada pelo eminente Gilberto Freyre, ouvi o seguinte comentário: "um reacionário prefaciando o outro". 

Desnecessário dizer que se trata de um comentário ideológico, vindo de um suposto esquerdista. E de alguém que, provavelmente, não conhece bem nenhum dos dois autores, motivado por posições políticas. 

Apesar de ser tetrólogo. O que tornaria ainda mais ideológica a observação. Por qual razão um teatrólogo desprezaria Nelson Rodrigues? 

Quando lhe disse que Rodrigues seria uma referência mundial do teatro moderno, responsavel por novas técnicas cênicas de representação temporal (apresentadas pela primeira vez em "Vestido de noiva"), o homem proferiu um: "a é?". 

E não falamos de um tetrólogo qualquer. Esse, em questão, se aventura em produzir, e encenar, Shakespeare. Um respeitável desafio. 

Não seria um Sir Lawrence Olivier. Mas também passaria longe do palhaço Tiririca. Na referida obra de Rodrigues, que também foi repórter policial, cronista esportivo e crítico de costumes, há uma crônica sobre o aniversário de 70 anos de Gilberto Freyre. Esse mesmo: autor da seminal "Casa grande e senzala". 

Rodrigues, nessa crônica publicada em 1970, lamenta o aniversário de Freyre ter passado em branco. Enquanto outro autor que, assim como Freyre, interpretou a alma de sua nação, teve o devido respeito. 

Quando Victor Hugo, intérprete da alma francesa,  completou 70 anos, Paris parou para homenageá-lo. 
Freyre, quando muito, foi agraciado com uma notinha num canto de um jornal.  

Rodrigues atribui essa indiferença à "esquerda festiva", que dominaria as redações dos jornais e que sempre dedicou o seu ódio ao escritor pernambucano. Em que pese sua importância para o desenvolvimento do pensamento sociológico brasileiro. 

É razoável dizer que FHC não seria levado muito a sério, em início de carreira, não fosse o caminho aberto por seu colega sociólogo, com a publicação de "Casa grande e senzala". 

Obra que, certamente, propaga uma visão edulcorada do principal problema histórico brasileiro, a escravidão. Mas que, por outro lado, não se resume a isso. 

Fica aí mais uma característica da alma brasileira, não detectada por Freyre: o brasileiro não seria solidário nem no câncer (parafraseando expressão atribuída o Otto Lara Resende). Muito menos no aniversário de algum desafeto político.

* Marco Antônio Andere Teixeira é historiador, advogado, cientista político (UFMG), pós-graduado em Controle Externo (TCEMG/PUC-MG), Direito Administrativo (UFMG) e Ciência Política (UFMG). E-mail: marcoandere.priusgestao@gmail.com 

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