O manifesto sonoro de Caetano Veloso em "Circuladô Vivo"

29 Set, 2025 - 16:26
O manifesto sonoro de Caetano Veloso em "Circuladô Vivo"
Capa de “Circuladô Vivo”, álbum que traz Caetano no auge de sua forma

Se eu tivesse que escolher hoje qual seria meu álbum preferido de Caetano Veloso, diria sem hesitar que é "Circuladô Vivo". 

Lançado em 1992, o álbum duplo é mais que um registro de show; é a culminação de uma fase musical e política de Caetano Veloso. 

Gravado durante a turnê do disco de estúdio "Circuladô", o álbum captura o artista no auge de sua forma, em um momento de transição e amadurecimento. 

O álbum se destaca por ser um manifesto sonoro. A banda de apoio demonstra uma coesão impressionante, transitando com fluidez entre o rock experimental e a bossa nova, resgatando em alguns momentos a sonoridade de álbuns clássicos como "Caetano Veloso", de 1969. 

As guitarras, que alternam entre o psicodélico e o contido, dão uma nova cor às músicas e enriquecem a experiência sonora. 

O repertório é uma jornada através da obra de Caetano, com regravações de canções marcantes como "Você é Linda", "Queixa" e "Sampa", que ganham novos arranjos e interpretações. 

O coração do disco pulsa nas faixas mais recentes, com destaque para a canção-título "Circuladô de Fulô" e "Itapuã". 

"Black or White", de Michael Jackson, é emoldurada por um rap cantado por Caetano, fazendo uma contundente crítica social contra o racismo e a favor da união e igualdade entre as pessoas, independente da cor da pele. 

Caetano brinda o público com a melhor versão já apresentada de "A Filha Da Chiquita Bacana / Chuva, Suor E Cerveja", faixa que emenda duas canções icônicas de Caetano, "A Filha da Chiquita Bacana" e "Chuva, Suor e Cerveja". 

"A Filha da Chiquita Bacana" é uma canção dos anos 1970, em um período de grande experimentação musical do artista, enquanto "Chuva, Suor e Cerveja" é um clássico carnavalesco. 

Não poderia deixar de comentar a faixa que considero a mais emblemática do álbum, que também é a melhor versão já apresentada pelo artista: "Um Índio". 

Originalmente lançada em 1978, a canção é uma das mais profundas e filosóficas da obra de Caetano.

Composta em uma fase de maior introspecção, a música é uma reflexão sobre a cultura indígena e a sabedoria ancestral, contrapondo-a ao mundo "branco" e ocidental. A versão ao vivo mantém a sua atmosfera mística e contemplativa. Perfeita! 

E tem ainda "Jokerman", composta pelo cantor e compositor norte-americano Bob Dylan. Lançada em 1983 no álbum "Infidels", a canção é um dos trabalhos de Dylan que mais geraram especulação sobre o seu significado.  

A turnê que gerou o álbum foi aclamada pela crítica e pelo público na época, consolidando a importância do disco de estúdio e reafirmando o lugar de Caetano como um dos maiores artistas brasileiros. 

O fato de o álbum ser duplo permitiu a inclusão de um repertório extenso e a exploração de diferentes facetas de sua música. 

"Circuladô Vivo" é um documento histórico que celebra o amadurecimento artístico de Caetano, a sua capacidade de se reinventar e a força de sua obra. Um álbum para se ouvir várias vezes, sem cansar.

* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade 

 

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