O manifesto sonoro de Caetano Veloso em "Circuladô Vivo"
Se eu tivesse que escolher hoje qual seria meu álbum preferido de Caetano Veloso, diria sem hesitar que é "Circuladô Vivo".
Lançado em 1992, o álbum duplo é mais que um registro de show; é a culminação de uma fase musical e política de Caetano Veloso.
Gravado durante a turnê do disco de estúdio "Circuladô", o álbum captura o artista no auge de sua forma, em um momento de transição e amadurecimento.
O álbum se destaca por ser um manifesto sonoro. A banda de apoio demonstra uma coesão impressionante, transitando com fluidez entre o rock experimental e a bossa nova, resgatando em alguns momentos a sonoridade de álbuns clássicos como "Caetano Veloso", de 1969.
As guitarras, que alternam entre o psicodélico e o contido, dão uma nova cor às músicas e enriquecem a experiência sonora.
O repertório é uma jornada através da obra de Caetano, com regravações de canções marcantes como "Você é Linda", "Queixa" e "Sampa", que ganham novos arranjos e interpretações.
O coração do disco pulsa nas faixas mais recentes, com destaque para a canção-título "Circuladô de Fulô" e "Itapuã".
"Black or White", de Michael Jackson, é emoldurada por um rap cantado por Caetano, fazendo uma contundente crítica social contra o racismo e a favor da união e igualdade entre as pessoas, independente da cor da pele.
Caetano brinda o público com a melhor versão já apresentada de "A Filha Da Chiquita Bacana / Chuva, Suor E Cerveja", faixa que emenda duas canções icônicas de Caetano, "A Filha da Chiquita Bacana" e "Chuva, Suor e Cerveja".
"A Filha da Chiquita Bacana" é uma canção dos anos 1970, em um período de grande experimentação musical do artista, enquanto "Chuva, Suor e Cerveja" é um clássico carnavalesco.
Não poderia deixar de comentar a faixa que considero a mais emblemática do álbum, que também é a melhor versão já apresentada pelo artista: "Um Índio".
Originalmente lançada em 1978, a canção é uma das mais profundas e filosóficas da obra de Caetano.
Composta em uma fase de maior introspecção, a música é uma reflexão sobre a cultura indígena e a sabedoria ancestral, contrapondo-a ao mundo "branco" e ocidental. A versão ao vivo mantém a sua atmosfera mística e contemplativa. Perfeita!
E tem ainda "Jokerman", composta pelo cantor e compositor norte-americano Bob Dylan. Lançada em 1983 no álbum "Infidels", a canção é um dos trabalhos de Dylan que mais geraram especulação sobre o seu significado.
A turnê que gerou o álbum foi aclamada pela crítica e pelo público na época, consolidando a importância do disco de estúdio e reafirmando o lugar de Caetano como um dos maiores artistas brasileiros.
O fato de o álbum ser duplo permitiu a inclusão de um repertório extenso e a exploração de diferentes facetas de sua música.
"Circuladô Vivo" é um documento histórico que celebra o amadurecimento artístico de Caetano, a sua capacidade de se reinventar e a força de sua obra. Um álbum para se ouvir várias vezes, sem cansar.
* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade
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