Deixe-se provocar por Lia Sophia

Aquiles Rique Reis comenta sobre o novo trabalho da cantora Lia Sophia

Ao optar por crescer e ser cantora em Belém do Pará, a franco guianesa Lia Sophia talvez não imaginasse que as mulheres que vivem próximas à grande floresta têm tamanha ousadia que se tornam fortalezas. Talvez inconscientemente, Lia se preparou com tal ardor e perseverança que se pôs acima do cotidiano corriqueiro e modorrento. Intuindo que mesmo os hipócritas haveriam de consagrá-la e que os tolos se deixariam impregnar com sangue novo, Lia deu-se à música.

Pressentiu a brisa embalando a inventividade, e seu poder de criação ganhou o vigor dos rios e da grande floresta – uma força que reflete o brilho das escamas dos peixes e das cores das folhas das árvores amazônicas. Arrebatada, ela cria e canta músicas que são dela, mas também de todos nós.

Embalada pelo carimbó e pelo merengue, a música de Lia apresenta um fluxo que dá sentido à sua existência e ao seu trabalho. As onze faixas de Não Me Provoca (Vida Criativa Produções) são plenas de energia, de anseio libertário, de feitiço canalizados à música. Para além de todos os seus predicados, o que não falta ao CD são boas canções (a maioria composta apenas por Lia, outras com parceiros), além de convidados especiais e de bons instrumentistas.

Embalada pelo carimbó e pelo merengue, a música de Lia apresenta um fluxo que dá sentido à sua existência e ao seu trabalho. As onze faixas de Não Me Provoca (Vida Criativa Produções) são plenas de energia, de anseio libertário, de feitiço canalizados à música. Para além de todos os seus predicados, o que não falta ao CD são boas canções (a maioria composta apenas por Lia, outras com parceiros), além de convidados especiais e de bons instrumentistas.

Produzida por Pedro Luís, o poder da música de Lia desponta, logo de cara, em “Ela” (Lia Sophia): com metais e percussões, e o suingue característico da música criada no Norte do Brasil, é um convite para ouvir e curtir.

Dividindo o protagonismo com Ney Matogrosso – ele que esbanja sensualidade numa interpretação extraordinária –, a letra de Lia, envolta numa levada buliçosa (o couro come bonito), ganha ainda mais força com os versos finais: “(…) Liberdade, prazer/ Ela quer, ela tem/ Não duvide, não zombe/ Ela sangra todo mês”. Deus do céu!

A seguir vem “Incendeia” (LS), que tem introdução na mesma pegada da anterior. Os metais e o couro dos tambores arrepiam.
“Hashtag” (Carla Maués e Cris Souza) é um reggae balançado, com direito a intermezzo do trompete.

Na lenta e bela “Eu Me Chamo Amazônia” (LS), com participação do violonista Sebastião Tapajós, os versos detonam: “Não Me Provoca/ Eu sou filha da floresta/ E se o vento me sopra/ Eu faço pororoca (…)”. Com voz solar, Lia brilha no bolero “Tuyo” (Rodrigo Amarante, versão de Lia Sophia). O intermezzo do trompete é puro estilo “mexicano”. Em “Me Beija” (LS), Lia e Paulinho Moska botam pra quebrar, saindo-se muito bem na levada do ritmo arrebatador.

Fechando a tampa, “Hoje É Outro Dia” (LS e Taísa Fernandes, ela que, junto com Lia e Pedro Luís, fez todos os arranjos. “(…) Se solte e dance/ Viva a energia”, diz Lia Sophia, conclamando o povo amazônico e todos os brasileiros – também devotos da força mística da terra e do mar – a deixarem-se provocar pela sua música.

PS. O contrabaixista André Rodrigues morreu atropelado quando pedalava no Aterro do Flamengo (RJ), no domingo de Páscoa. Uma tragédia que a família e a música choram. Não à impunidade.

* Aquiles Rique Reis é vocalista do MPB4. E-mail: [email protected]