Por que "There Is a Light That Never Goes Out" é a melhor música do The Smiths
Lançada em 1986, canção une a letra melancólica à melodia acolhedora
Neste momento, eu considero que "There Is a Light That Never Goes Out" é a melhor música da banda The Smiths.
Eu nunca tinha parado para analisar a letra, mas, depois de fazer isso, a música parece que ficou ainda melhor.
Lançada em 1986 no lendário álbum The Queen Is Dead, "There Is a Light That Never Goes Out" captura com perfeição a síntese única que define a banda: o lirismo dramático, irônico e vulnerável do vocalista Morrissey entrelaçado à melodia orquestrada e inesquecível de Johnny Marr.
É uma combinação que provoca a sensação de ser estranhamente melancólica e acolhedora ao mesmo tempo.
Acolhimento na melancolia
Fica bem evidente que a arquitetura musical construída por Johnny Marr é o que impede a música de afundar em um desespero sombrio.
A introdução de violão e o riff marcante de guitarra trazem uma textura calorosa e constante, e você acaba ignorando que estamos diante de algo trágico.
Em vez de sobrar tristeza, a melodia soa grandiosa e receptiva. Enquanto a voz de Morrissey canta sobre isolamento e morte, a música ao fundo oferece acolhimento.
Se você apenas ouve a canção, sem se ater aos versos, certamente não irá perceber o paradoxo.
A letra aborda temas centrais do universo do The Smiths: o desejo desesperado de pertencer, a rejeição familiar e o amor romântico elevado às últimas consequências:
"Take me out tonight / Where there's mu-sic and there's people and they're young and alive"
A canção começa com um pedido urgente de socorro. O eu lírico quer ser tirado de sua rotina sufocante e ir para onde haja vida.
"Driving in your car / I never never want to go home / Because I haven't got one / Anymore"
Essa parte aqui é poesia pura: o "lar" não é apenas uma estrutura física, mas um espaço de pertencimento que deixou de existir (seja por rejeição familiar ou solidão existencial). O carro da pessoa amada passa a ser o único refúgio seguro.
O romantismo macabro
A partir deste ponto é que a letra ganha contornos trágicos, com dois versos considerados entre os mais icônicos do rock britânico.
É o humor negro a serviço do romantismo - se é que isso é possível:
"And if a double-decker bus crashes into us / To die by your side is such a heavenly way to die"
"And if a ten-ton truck kills the two of us / To die by your side, well, the pleasure, the privilege is mine"
A ideia de morrer em um acidente trágico ao lado da pessoa amada não é vista como horror, mas como um "privilégio".
Para quem não tem nada nem ninguém, a morte compartilhada torna-se a validação máxima do afeto.
A citação "double-decker bus", em referência aos ônibus vermelhos de dois andares, deixa tudo ainda mais "inglês".
Insegurança e desejo
A cena dentro do carro ganha contornos de pura vulnerabilidade intimista.
O eu lírico hesita, quer declarar o que sente, mas é paralisado pelo medo da rejeição ("And if you think you're so handsome / Why won't you sleep with me?").
A tensão romântica permanece suspensa no ar, alimentada pelo silêncio e pela escuridão do veículo.
A luz que nunca se apaga
A "luz" do título pode ser interpretada de múltiplas formas. A interpretação que me parece fazer mais sentido é a de que a chama da esperança ou do amor é algo que nem a rejeição, nem a solidão e nem a morte conseguem extinguir.
"There Is a Light That Never Goes Out" usa sentimentos tão dolorosos quanto a rejeição e o medo de voltar para casa e os transforma em uma melodia bela e cantável.
Ela nos diz que, mesmo no meio da solidão mais profunda, existe beleza, humor e uma luz que permanece acesa.
* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade. E-mail: joaogabrielpcf@gmail.com
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