O trânsito é a representação máxima da cultura brasileira
Sempre achei o trânsito um reflexo profundo da nossa característica cultural: cheio de regras em todos os sentidos, o brasileiro faz questão de não seguir ou obedecer à regra como o povo japonês faz com uma maestria típica de um oriental.
O trânsito pressupõe organização antes de tudo, no qual o respeito ao coletivo é fundamental para que todo o sistema possa fluir seu escoamento natural.
A grande ironia é supor que somos desorganizados na essência de uma logística urbana e que em algum momento isso se perdeu com o passar dos tempos.
A verdade é que nunca houve esse constrangimento histórico pois de fato somos desorganizados nas ruas, vielas, travessias, rodovias e rodoaneis da vida, haja vista que somos campeões mundiais de acidente de trânsito praticamente em todos os anos.
Somos piores que países em que o meio de transporte são carroças ou charretes.
O Código de Trânsito existe, claro. Está ali, bonito, encadernado, atualizado de tempos em tempos.
Tem a mesma utilidade prática das instruções de montagem de um guarda-roupa compradas pela internet: ninguém lê, ninguém segue e, no final, sempre sobra um parafuso.
Aqui, dirigir não é uma atividade. É uma negociação permanente com a estupidez humana.
O semáforo vermelho não representa uma proibição. Representa uma opinião.
Há quem concorde, há quem discorde e há quem considere que, se não houver guarda por perto, trata-se apenas de uma sugestão do poder público.
As faixas de pedestres são outro monumento nacional ao otimismo. Chamam-se "faixas de segurança", embora garantam apenas uma coisa: que você será atropelado exatamente no lugar onde a prefeitura gostaria que isso acontecesse.
O brasileiro tem uma relação profundamente criativa com as regras. A fila existe até aparecer um amigo.
O estacionamento proibido dura "só cinco minutinhos", uma unidade de tempo brasileira equivalente a meia hora, duas ligações telefônicas e um café.
A seta do carro é usada da mesma maneira que promessa de político: geralmente depois que a decisão já foi tomada.
E há o fenômeno mais extraordinário da engenharia social brasileira: o cidadão que buzina para quem está parado diante de um sinal vermelho fechado.
Essa pessoa acredita sinceramente que o motorista da frente possui autoridade constitucional para mudar a cor do semáforo. É comovente.
Aliás, a buzina talvez seja nossa forma mais sincera de participação democrática.
Todo mundo opina ao mesmo tempo, ninguém escuta ninguém e, ao final, nada muda.
A cidade inteira funciona assim. O sujeito joga lixo pela janela do carro e, cinco minutos depois, publica nas redes sociais um texto emocionado sobre consciência ambiental.
Fura a fila do banco, estaciona sobre a calçada, compra atestado falso, pede "um jeitinho" para resolver um problema que ele mesmo criou e, à noite, conclui solenemente que "o Brasil não vai para frente por causa dos políticos".
Como se os políticos brotassem espontaneamente do solo, como cogumelos depois da chuva. Há uma fantasia nacional segundo a qual a corrupção começa em Brasília. Não.
Ela começa quando alguém ocupa duas vagas no estacionamento porque "meu carro é novo".
Quando estaciona na vaga de idoso "rapidinho". Quando compra carteira de estudante sem estudar. Quando liga para um conhecido para "dar uma agilizada".
Brasília apenas industrializa aquilo que aprendemos artesanalmente. O trânsito é apenas a versão automobilística dessa filosofia.
Cada motorista acredita ser o protagonista de um filme cujo orçamento não comporta figurantes. Os demais veículos são tratados como obstáculos emocionais.
Ultrapassar pela direita deixa de ser infração; vira demonstração de personalidade. Parar em fila dupla torna-se um direito adquirido.
E ligar o pisca alerta transforma qualquer irregularidade numa manifestação cultural. É extraordinário.
O pisca alerta brasileiro possui poderes quase religiosos. Você pode bloquear uma rua inteira, impedir uma ambulância de passar e interromper o fluxo de uma avenida.
Basta acionar aquelas duas luzes piscando e, magicamente, tudo se torna aceitável. É praticamente uma indulgência medieval sobre quatro rodas.
Enquanto isso, discutimos projetos para construir cidades inteligentes. Mal conseguimos produzir calçadas inteligentes.
Há buracos que já possuem CEP, memória afetiva e provavelmente direito adquirido ao tombamento histórico. O asfalto brasileiro não envelhece. Ele entra em decomposição assistida.
Mas talvez o mais fascinante seja nossa capacidade de reclamar. Reclamamos do trânsito enquanto fechamos cruzamentos. Reclamamos da corrupção enquanto pedimos favores.
Reclamamos da falta de educação enquanto assistimos vídeos em volume máximo dentro do ônibus. Reclamamos da bagunça exatamente no instante em que contribuímos para aumentá-la.
Somos incendiários profissionais indignados com a quantidade de fumaça. E talvez seja essa a grande tragédia cômica nacional. O Brasil não sofre apenas de falta de planejamento.
Sofre de excesso de exceções. Aqui, ao se que se parece na grande maioria das vezes, ninguém quer acabar com o privilégio. Cada um apenas deseja que o privilégio seja o seu.
Fica a sensação que no fundo, somos um país apaixonado pela ordem, desde que ela seja aplicada exclusivamente aos outros. E então voltamos ao trânsito.
Porque o trânsito nunca mente. Ele revela quem somos quando desaparecem os discursos, os filtros das redes sociais, as campanhas publicitárias e os slogans patrióticos.
Ali dentro do carro está o cidadão em estado bruto. Sem maquiagem cívica. Sem pose. Sem bandeira na janela.
Apenas um volante nas mãos e a convicção inabalável de que todos os outros dirigem mal.
O curioso é que todos pensam exatamente a mesma coisa. E talvez seja por isso que o engarrafamento nunca termine. Não por falta de espaço. Mas por excesso de ego.
* Eugênio Adami é advogado, contabilista e escritor
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