Magical Girl vai além de qualquer gênero

Obra foi exibida na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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O crítico de cinema Marcelo Leme comenta sobre o filme espanhol “Magical Girl”, dirigido por Carlos Vermut e exibido na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Ao final da sessão, curiosos sobre o que acabamos de ver, atentamos-nos ao nome de Carlos Vermut, roteirista e diretor desse Magical Girl. Dentro desse seu cinema, muitos provavelmente enxergariam alguma influência do uso das cores típicas de Pedro Almodóvar. O cartaz artístico e simbólico e a direção de arte justificam imaginar influências, tal como sua narrativa crucial, caso nos concentremos especialmente na fase almodovariana pós 2000.

A verdade é que não há muitas similaridades entres os cineastas, talvez existam insinuações por parte de Vermut. Ou, na verdade, tudo seja fruto da cultura do próprio cinema espanhol. Fazer referência ou não, nesse caso, pouco importa. O que interessa é descobrir quem é esse cara, talentoso na condução da história e imprevisível com o desenrolar do roteiro. É um filme que vai além de qualquer gênero. Cada ato reserva uma surpresa.

“Material Girl”: até os passos de seus personagens são calculados
“Material Girl”: até os passos de seus personagens são calculados

Dedicamos toda a atenção para a sequência de ações. É um método de assimilação apropriado ao espectador que acompanha a trajetória de um homem em meio às ameaças de tragédias pessoais. Esse homem é Luis, pai de uma garotinha enferma, que sonha ter o vestido de uma personagem de uma série japonesa chamada “Magical Girl Yukiko”. A partir das ações desse pai atrás do vestido, reações naturalmente acontecem. As contingências do cotidiano demarcam aspectos que interessam ao roteiro, estando os acontecimentos estranhos se convertendo em clímax.

Dois ou três momentos são destacados. Não há sobras em cena, tudo parece existir por alguma razão. É um filme de cálculos, cuja direção é concisa e metódica. Aparentemente até os passos de seus personagens são calculados, o que dá a impressão de engessamento em vários instantes. A questão é que os acontecimentos tem muito mais dimensão do que os personagens. Vermut filma o acaso! E filmando o acaso, explora planos com função de informação visual. Note a fragilidade das esperanças ou a do corpo debilitado da garota doente com a qual nos solidarizamos. Aqui há um ponto importante: uma mulher, em situação análoga a da criança, não detém da mesma condolência.

De boas intenções os piores lugares estão cheios. Ao que parece, segundo essa obra, a realização das intenções benéficas é possível, ainda que custem barbaridades. Na amoralidade e na distração da ação principal, aquela pela qual nos interessamos em assistir, o filme converte-se em outra coisa. O terceiro ato inova tudo. A história muda, deixa a ideia da realização buscada pelo pai para tornar-se um filme de violência com alguns de seus derivados. Vingança! Ameaça! Assassinato! A solidariedade tocante harmoniza o público para uma surpreendente tensão sobressair em cena.

Assim, se considerarmos as ações e reações do personagem, devemos considerar também as ações e reações do roteiro, e a consequência disso em conformidade à narrativa. Enquanto assistíamos a busca pelo vestido, flagramos encontros casuais que deram outra linha para a história. É a virada, a trajetória mascarada atrás de um desenrolar explosivo e complexo.

* Marcelo Leme é psicólogo e crítico de cinema