Editorial 29/07/26
Leia a opinião de hoje do Jornal da Cidade
Os desafios da abordagem social em Poços de Caldas
A resposta da Prefetitura a um requerimento do vereador Ricardo Sabino (PL) sobre a abordagem social em Poços de Caldas apresenta dados que expõem a complexidade do trabalho com a população em situação de rua.
Os números oficiais mostram uma queda na contagem dessa população, que passou de 306 pessoas em 2023 para 122 em 2026.
Por outro lado, a análise detalhada dos fluxos, das recusas e dos tratamentos de saúde indica barreiras estruturais que impedem a resolução definitiva do problema.
A Prefeitura mantém 190 vagas de acolhimento institucional, sem fila de espera declarada, com 122 pessoas acolhidas no momento.
O custo com pessoal do serviço de abordagem atinge R$ 1,9 milhão ao ano, somado a R$ 68,9 mil com veículos e R$ 98,6 mil com o aluguel do Centro POP.
Apesar do aparato técnico e financeiro, a adesão aos serviços enfrenta resistências constantes.
Das pessoas abordadas pelas equipes em campo, 50,66% recusam a ajuda no primeiro contato.
A legislação federal proíbe a remoção compulsória, o que exige um trabalho continuado, refletido na média de 3,4 abordagens mensais para cada indivíduo atendido.
A rotatividade do público também interfere na estabilidade das políticas públicas.
Nos últimos 12 meses, o município registrou 1.516 retornos para cidades de origem ou deslocamentos para outros locais por meio da concessão de passagens pelo Centro POP.
Esse número de migrantes supera a população fixa mapeada na cidade e demonstra que Poços de Caldas atua como ponto de passagem para um contingente flutuante de vulneráveis.
O ponto crítico do sistema está na área de saúde mental e dependência química.
Apenas 13 pessoas foram encaminhadas para internação nos últimos seis meses.
No CAPS AD, 80% das internações terminam sem o cumprimento da terapia, sendo 40% por desistência, 26,7% por evasão e 13,3% por desligamentos administrativos.
As altas médicas programadas somam apenas 20% das saídas. A alta taxa de abandono do tratamento compromete a eficácia da assistência social, pois o vício impede a manutenção dos vínculos de trabalho e moradia.
A inserção no mercado de trabalho e o acesso à renda ainda são restritos. Do total atendido no período, 70 pessoas recebem o Bolsa Família e 232 saíram dos abrigos por processos de reinserção social ou profissional.
A Prefeitura executa a média de 565 encaminhamentos mensais para a rede de apoio, mas reconhece que o dado reflete procedimentos operacionais repetidos para os mesmos indivíduos, sem garantia de autonomia duradoura.
A redução no número oficial de moradores em situação de rua indica avanços nas contagens locais, mas a evasão no tratamento de saúde e a constante migração revelam que o acolhimento assistencial esbarra na ausência de mecanismos eficazes para tratar a dependência e deixar o indivíduo fora da vulnerabilidade.
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