O Arlequim Negro em Chocolate

Filme conta sobre o primeiro palhaço negro da França

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O crítico de cinema Marcelo Leme comenta sobre o filme “Chocolate”, acerca do primeiro palhaço negro da França, estrelado pelo ator franco-senegalês Omar Sy.

De origem senegalesa, o francês Omar Sy tornou-se estrela na França logo após seu trabalho em Intocáveis (2011), de Olivier Nakache e Eric Toledano. De lá pra cá, choveram convites ao ator e humorista. Carisma e talento não lhe faltam. Após o êxito, teve rápida passagem por Hollywood em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido (2014) e Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015). Papeis menores. Há quem não o tenha reconhecido.

Fez Samba (Samba, 20-14), repetindo parceria com os diretores de Intocáveis. Agora assume o protagonismo deste Chocolate, cinebiografia do primeiro palhaço negro da França. E quais as razões para iniciar um texto sobre o filme trazendo um breve histórico do ator? Roschdy Zem é um cultuado produtor, ator, roteirista e diretor francês. É ele quem dirige Chocolate, desenterrando um artista até então pouco conhecido, que de alguma forma dominava a arte do clown.

Chocolate, pseudônimo de Rafael Padilha, palhaço vivido por Sy, foi uma estrela no final do século XIX em Paris. No picadeiro, atuava junto a outro palhaço que lhe agredia a fim de instigar o delírio dos espectadores burgueses. Representava ali, no meio de todos, a escravidão que deixara de ser legalizada à época, assumindo o bobo, humilhado na frente de todos em troca de risos alheios, triunfo pessoal e financeiro.

Circunstâncias esboçadas pelo roteiro reagem a situação oprimida consentida, abrindo espaço a outros extremos da vida dessa personalidade, tal como o alcoolismo e seu vício em apostas onerosas.  O que falta a Roschdy Zem é o tal ímpeto de ir além de uma simplória cinebiografia, já que o filme trava na falta de coragem em ser mais profundo. Um desperdício narrativamente sentido, pois em suas mãos há dois extraordinários atores, Omar Sy e James Thiérrée.

Omar Sy, em cena de "Chocolate"
Omar Sy, em cena de “Chocolate”

Há reflexões a cerca de completudes no meio da história, quando Footit (Thiérrée), arlequim profissional, descobre Rafael Padilha marginalizado num pequeno circo itinerante, dividindo atenção com o que chamavam de aberrações. Sempre que juntos, nas apresentações, faziam muito sucesso a ponto de rapidamente serem alçados a Paris, encontrando o grande estrelato.

Da mesma forma que os palhaços funcionavam juntos, os atores também funcionam. James Thiérrée é brilhante, contido e reservado, trazendo uma melancolia misteriosa que desvanece no momento que assume seu personagem por trás de maquiagens. Diferentemente está Chocolate, que preza por seu natural carisma e sua habilidade em se relacionar com pessoas, empatia que lhe rende bronca. Essa relação responde a pergunta do primeiro parágrafo. Omar Sy está sempre ancorado por um outro grande ator.

Ele ainda não assumiu um grande filme sozinho. Em Intocáveis, François Cluzet lhe dá um norte; em Samba, sua eficiência dramática se acentua quando junto a Tahar Rahim que lhe serve como um contra-ponto. Aqui é Thiérrée quem dá o ritmo. Então é ótimo acompanhar a dupla. Eles se sobrepõem a fraqueza do roteiro. É um feito de atores homenageando artistas, buscando detalhar brevemente quem foi Rafael Padilha e qual sua importância para a arte circense; e qual sua relevância ao teatro.

O nexo do personagem com as obras de Shakespeare, insistentemente tratadas pelo roteiro, embasam sua personalidade e seus sonhos despertados pós-emancipação e autonomia. Parece ser inimaginável qualquer obra cinematográfica que trabalhe com arte circense não investir na produção e na fotografia. Chocolate faz isso harmoniosamente bem. Tudo isso favorece a imersão àquele universo distante, outra época com o racismo declarado.

Assim se revela, uma crítica ao racismo e detentor de atenção considerável a percepção de seus personagens a respeito do tema: o assunto está enfático e onipresente. É por várias temáticas dentro da narrativa e por não dar atenção específica a nenhuma que falha. Há coisas aonde não devia; ou pouco tempo demais para se falar de cada subtrama. Todas possuem potencial de chegar a algum desfecho digno a esse, até então, desconhecido e importantíssimo artista.

* Marcelo Leme é psicólogo e crítico de cinema, escreve sobre cinema às quartas e finais de semana