Animais Fantásticos aproveita universo de Harry Potter

O crítico Marcelo Leme comenta sobre o filme

O crítico Marcelo Leme comenta sobre Animais Fantásticos e Onde Habitam, que embarca no universo consagrado de Harry Potter.

Harry Potter é uma franquia que se imortalizou graças aos seus fieis fãs. Solidificou-se como uma das mais importantes deste século. Alguns cresceram junto aos personagens e estes inevitavelmente se tornaram parte da vida de centenas de pessoas. Algumas coisas dentro daquele universo foram emblemáticas.

Aquela melodia composta pelo genial John Williams, por exemplo. Como esquecer? Com o anúncio da filmagem de uma história que existiria dentro daquele contexto, a ansiedade e a expectativa tomou conta dos fãs e dos demais interessados. Animais Fantásticos e Onde Habitam não tem relação direta com a franquia anterior, mas faz parte do mesmo universo, inclusive com personagens e lugares em comum. A nostalgia impera!

A escritora J.K. Rowling foi quem o roteirizou, baseando em um livro homônimo de sua autoria. A história se passa muitas décadas antes das ocorrências de Harry Potter. Passa-se em Nova York, em 1926. Lá, o magizoólogo Newt Scamander caminha admirado pelas ruas da cidade, carregando uma maleta carregada de várias espécies de criaturas fantásticas. Ele para a caminhada a fim de olhar uma mulher questionar a existência de bruxos e bruxas na cidade.

Ela grita como se estivesse pregando sua fé, lembrando durante o discurso a inquisição. O fundamentalismo religioso vigora como adorno da narrativa. A associação ao tema é natural e real. Esta mulher levanta dúvidas no meio de pessoas que param para lhe ouvir. E no meio dessas pessoas, estão aqueles que suas duras palavras condenam.

E é ali que reside a trama que abre o filme: uma troca acidental de malas durante uma manifestação de intolerância. Dirigido por David Yates, cineasta que tem intimidade com o universo dos bruxos por ter dirigido os quatro últimos filmes de Harry Potter, a obra carrega as mesmas características artísticas dos antecessores, sempre obscurecido e cinza, apropriando-se de uma cidade que historicamente oferece essa possibilidade de abordagem visual.

O aclamado Eddie Redmayne protagoniza o filme

O clima soturno choca-se com o encantamento de Newt Scamander que olha tudo com certa admiração. Dentro da mala reside um mundo que contrasta o exterior monocromático, cuja gama de cores remete a vida, a preservação que o protagonista persegue. A troca acidental de malas não poderia acontecer em um período contextual mais apropriado. A cena parece ter sido roubada de alguma comédia muda da década de 20.

Scamander troca as malas com o sonhador Jacob Kowalski que busca investimento para montar uma padaria artesanal, num tempo em que as máquinas já roubavam vagas. Ao abrir sua mala, os animais fantásticos do título saem perambulando por Nova York. A partir disso, um grupo passa a ir a caça dos seres que se dividem às escondidas pelos cantos da cidade. Estes seres, aliás, são concebidos das maneiras mais curiosas possíveis, justificando a questão proposta no título sobre animais fantásticos. Onde eles vivem é outra história.

O aclamado Eddie Redmayne protagoniza o filme e oferece uma interpretação coerente com manejos caricaturais – favorecidos ainda por seu figurino – que corroboram a personalidade e origem de seu personagem. Outros bons atores conferem peso a obra, como Ezra Miller, Jon Voight e Colin Farrell. Em suma, a empreitada é fantasiosa e prática, cheia de truques no roteiro e seguindo a cartilha mais convencional usada em animações nos últimos 20 anos.

Some a isso a presença de um alívio cômico que, felizmente, existe para além da comédia. Dan Fogler entrega um Jacob Kowalski pontual em suas gags. Há muito a se desenvolver em Animais Fantásticos e Onde Habitam. Que cresça como Harry Potter cresceu ao longo de seus próximos filmes.

* Marcelo Leme é psicólogo e crítico de cinema. E-mail: marceloafleme@gmail.com