A Última Casa: por que o filme dividiu tanto as opiniões do público?
Suspense apocalíptico provocou rejeição ao transitar do confinamento familiar para o horror cósmico lovecraftiano
Um dos filmes mais assistidos do momento na Netflix é "A Última Casa" (2026), que traz como grande destaque o ator brasileiro Wagner Moura estrelando o elenco.
Assisti ao filme não por ele estar no topo do ranking da Netflix, mas por trazer uma combinação de suspense apocalíptico e terror sci-fi, que é um dos subgêneros que mais me agrada.
Por ter uma temática muito específica, talvez seja um dos motivos de tantas pessoas torcerem o nariz para a obra.
Dirigido por Louis Leterrier, o filme parte de uma sufocante metáfora de confinamento: uma família acorda e descobre que todas as portas e janelas de sua residência foram seladas por uma barreira misteriosa criada pela própria água da chuva, transformando o lar em um cativeiro.
Do apocalipse familiar ao horror cósmico
No primeiro ato, a narrativa funciona rigorosamente sob a cartilha dos filmes de apocalipse e sobrevivência extrema, na linha de "Eu Sou a Lenda" (2007), "Um Lugar Silencioso" (2018), "Bird Box" (2018) e "O Mundo Depois de Nós" (2023): o "vale tudo" pela preservação da vida e do núcleo familiar.
O divisor de águas é a transição gradual da paranoia cotidiana para a ficção científica, quando se observa que o foco passa a ser o horror cósmico lovecraftiano, subgênero literário criado pelo escritor norte-americano H.P. Lovecraft.
A comparação com o livro "O Chamado de Cthulhu" é imediata. Mas também podemos remeter a produções recentes como "Ameaça Profunda" (2020), protagonizado por Kristen Stewart.
Ambos os filmes compartilham a mesma premissa lovecraftiana de que a humanidade não é dona do planeta, mas apenas uma inquilina temporária.
Em "A Última Casa", as criaturas surgem das profundezas oceânicas, como se estivessem reclamando a Terra por conta do colapso climático causado pelos homens.
O colapso do lar e a dinâmica dos personagens
Assim que o filme avança, a casa deixa de ser apenas uma espaço físico para se tornar o espelho da deterioração psicológica da família.
Conforme o enclausuramento se arrasta por anos, a estrutura do imóvel vai se desfazendo, forçando os moradores a improvisarem para sobreviver.
Wagner Moura interpreta Jason, o pai pragmático e engenheiro desempregado que assume o papel do provedor implacável. Movido por uma lógica utilitarista, é ele quem faz gambiarras, caça e adapta a casa para captação de água, custe o que custar.
Greta Lee é Ann, a mãe que funciona como a âncora emocional e a força cultivadora. Enquanto Jason foca na segurança física e na caça, Ann foca na manutenção da vida e da sanidade.
Graham e Ruth (os filhos) representam a perda da inocência dentro de um contexto de "fim do mundo".
À medida que crescem enclausurados, passam a questionar o próprio sentido de sobreviver em um espaço sem futuro, sendo Ruth a primeira a compreender a natureza das criaturas do lado de fora.
Um dos momentos mais dolorosos do filme envolve o cão da família, Cassidy. Sem remédios para tratar sua doença e diante da escassez absoluta, o animal tem seu destino tragicamente traçado por uma necessidade fria de sobrevivência.
É um momento que evoca inevitavelmente a clássica e comovente passagem da cadela Baleia no livro "Vidas Secas", de Graciliano Ramos.
Trazendo para o âmbito do suspense apocalíptico, também nos remete ao já citado "Eu Sou a Lenda".
A comunicação por cartazes
Durante o período em que a comunicação ainda era tentada através dos vidros bloqueados, o filme entrega uma das cenas mais emblemáticas da paranoia inicial: a troca de mensagens com os vizinhos por meio de quadros e cartazes.
É nesse momento que um dos vizinhos levanta a pergunta inevitável que assombra o gênero: seriam aliens?
Essa dúvida aciona a paranoia conspiratória típica da ficção científica, até que a revelação final prove que a ameaça é muito mais antiga e terrena do que qualquer invasão do espaço.
Por que a onda de críticas negativas?
O filme dividiu opiniões e vem acumulando uma quantidade considerável de críticas negativas. Me parece que o motivo principal da rejeição reside no choque de expectativas do público.
A crítica especializada apontou que o filme funciona bem como um drama claustrofóbico de isolamento, mas derrapa quando tenta justificar cientificamente e visualmente a presença dos monstros.
Quanto mais ele tenta explicar o inexplicável, mais perde a força dramática. Aqui, eu concordo que o filme perde impacto.
Outro ponto é que o público que esperava um thriller tradicional de "invasão domiciliar" ou sobrevivência extrema acabou se frustrando com a guinada lovecraftiana do terceiro ato.
Pesou também que para muitos espectadores, o conceito do confinamento forçado e da ameaça externa remeteu a produções recentes, como as citadas anteriormente, fazendo com que a obra soasse derivativa.
Na verdade, todos esses filmes bebem da mesma fonte e sempre trazem elementos parecidos, o que explica a sensação de parte do público de estar vendo algo repetido.
Para quem gosta do subgênero que mescla suspense apocalíptico e terror sci-fi, é uma boa pedida. Para o público que não é tão afeito à temática, a obra pode decepcionar.
* João Gabriel Pinheiro Chagas é diretor do Jornal da Cidade. E-mail: joaogabrielpcf@gmail.com
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